21 Setembro 2021, Terça-feira
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Constantino Alves: “Em Setúbal aprendi o que é ter alma e coração de operário”

O padre que foi dirigente sindical no tempo das bandeiras negras continua no desafio diário da ajuda aos mais fracos

 

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Embora negue protagonismos, o padre Constantino Alves tem-se afirmado como uma das vozes mais sonantes na discussão em redor das necessidades sociais setubalenses.

Fotografia: Mário Romão

Defensor acérrimo da liberdade e da dignidade humana, chegou ao Distrito de Setúbal em 1978 onde enveredou por um desafiante percurso como padre operário. Testemunhou em primeira mão as dificuldades impostas aos operários da indústria naval, automóvel e metalúrgica, desempenhando durante vários anos funções como dirigente sindical.

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Com a assistência de uma equipa de voluntários dedicados, assegura na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição o funcionamento de um restaurante social, a operar desde 2011, e de uma clínica social dentária inaugurada em 2015, assim como vários outros serviços focados para os elementos mais vulneráveis da população setubalense.

Ainda como seminarista, quando distribuía clandestinamente literatura de oposição ao regime, as consequências, se descoberto, preocupavam-no?

Os ideais que me animavam relativizavam os riscos. Quando ia tomar café, a um ou dois cafés do Porto, com outros companheiros e colegas, já estávamos habituados a ver os senhores de gabardine amarela (agentes da PIDE). Estávamos habituados a essa convivência, a esse risco, mas o romantismo que tínhamos dentro de nós ultrapassava-o.

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Quando chegou ao distrito de Setúbal, quais eram as principais frentes da luta operária?

Era a transição entre o período áureo revolucionário de 1975/76 e o início da chamada recuperação capitalista, ideológica, da racionalização flexível da economia e reestruturação das grandes empresas, dos processos de salários em atraso; chegaram a ser mais de 30 mil trabalhadores no distrito de Setúbal com salários em atraso, sem salário…as bandeiras negras da fome, as marchas para Lisboa, o encerramento de pequenas empresas, despedimentos… Com a comunicação social mundial a vir testemunhar o fenómeno português dos salários em atraso e dos contratos a prazo. Eu era um privilegiado, um pouco como certos intelectuais que pairam e vão de vez em quando ao terreno, até fazem gestão de um conjunto de dispositivos de intervenção social, mas não tinha sujado as minhas botas no terreno dos trabalhadores operários, não tinha sentido o que são as injustiças sociais na desigualdade salarial, no tratamento das pessoas, na falta de condições de trabalho, ou a repressão. Mergulhei nesse mundo como anónimo, como servente de obras para me capacitar de conhecimentos do que é, verdadeiramente, ter alma de um operário, coração operário, preocupações de um operário.

Recordando a sua actividade como dirigente sindical (coordenador dos concelhos de Setúbal, Palmela e Grândola do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul), qual considera ter sido o momento ou realização mais significativos dessa actividade?

Tinha havido o desmantelamento, ou a destruição, ou a “reestruturação” de todo o sector automóvel aqui do concelho de Setúbal, o que levou ao encerramento das empresas do sector, excepto a Renault. Na IMA, acompanhei os anos finais de todo o processo da empresa e havia que ajudar os trabalhadores a sofrerem o menos possível e a serem o mais justamente tratados. Durante ano e meio, consegui que os trabalhadores, todas as quintas-feiras (tinham ido para casa porque não recebiam salários, estavam à espera), se reunissem lá. E então, conseguimos que recebessem uma indemnização com o apoio da Segurança Social e que fossem, o menos possível, feridos na sua dignidade e nos seus direitos.

Durante a pandemia, o Centro Social Paroquial D. Manuel Martins experienciou um aumento de 25% na procura de apoio alimentar e de 50% em outros apoios. Quais percepciona como as principais mudanças impostas pela covid-19 ao tecido social setubalense?

A principal consequência foi o aumento da fragilidade da vida das pessoas, relativamente à sua sustentabilidade económica, com tudo o que isso implica (poderem fazer face às necessidades vitais) e também ao nível psicológico e emocional. Por outro lado, também a insegurança emocional, as pessoas perguntarem-se: “quando é que isto acaba? Isto vai ser sempre assim?” e olharem para a situação dos seus agregados familiares e para a incerteza do futuro. Ainda no aspecto psicológico, também um aumento do individualismo, do “salve-se quem puder”, do afastamento um dos outros, da desconfiança; isso cria um hábito e uma atitude interior de distância dos outros que podem ser um perigo, que podem transmitir o vírus; [nota-se] uma falta de esperança das pessoas. Depois, também a interdição a momentos de sociabilidade, de convivência, provocou um enorme abalo do ponto de vista psicológico, a fragilização do sentido da pertença e da participação das pessoas. Por outro lado, simultaneamente houve, contudo, um crescimento de gestos e mecanismos de solidariedade e de fraternidade e justiça, porque nunca como durante este ano houve tanta solidariedade e apoios seja a nível financeiro, sejam apoios com géneros alimentares.

As questões da antiga Mecânica Setubalense e Quinta da Parvoíce têm marcado a actualidade há anos. Quem e como poderá começar a responder às problemáticas que fomentam o nascimento deste tipo de aglomerado habitacional?

Há causas comuns e que são prioridade. Uma é a do trabalho decente e bem remunerado (no sentido que seja suficiente para dar resposta às necessidades básicas de uma família, em todas as dimensões, incluindo o aspecto do lazer e da cultura). Há muitas pessoas que estão desempregadas ou semiempregadas, ou em precariedade muito grande com uma incerteza constante das horas que vão trabalhar. Se formos à Quinta da Parvoíce neste momento, pessoas com trabalho efectivo, haverá duas, três. Ligado ao trabalho, haveria que considerar outras dimensões: a interculturalidade, a educação e formação para contrariar uma tendência muito natural das pessoas se juntarem; na Mecânica Setubalense, das 55 famílias, 95% (ou até mais) eram famílias de origem africana. E há também o problema da habitação, porque sem salário, para se pagar uma renda de casa, não se consegue uma habitação digna e decente e, quando isso não existe, as pessoas afastam-se para as periferias, promovendo a autoconstrução. O Estado e a autarquia deveriam promover a construção de habitação social.

Nota: Esta entrevista foi realizada antes da assinatura do acordo, entre o município de Setúbal e o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) para o realojamento de 73 famílias da Quinta da Parvoíce.

*Pedro Fernandes – Investigador do Pólo História, Territórios e Comunidades, FCSH, UNL

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