Viver na Aroeira, ou em qualquer ponto da mancha atlântica de Almada, é hoje um exercício de observação de um fenómeno político e social fascinante: a transformação de um território que deixou de ser “periferia” para se tornar um ativo estratégico nacional. No entanto, para quem estuda Ciência Política, é impossível não questionar se o planeamento público está a acompanhar o ritmo do investimento privado.
Almada está na moda, e a Aroeira é a sua face mais visível nos circuitos de turismo e imobiliário de luxo. Mas uma cidade (ou uma freguesia) não é apenas um postal. A vitalidade de um concelho mede-se na capacidade de as suas instituições garantirem que o desenvolvimento de um setor não asfixia a rotina de quem cá vive o ano inteiro. Falo da mobilidade — o eterno gargalo da nossa região —, mas também da preservação ambiental e do acesso a serviços básicos que parecem ter ficado dimensionados para a Almada de há vinte anos.
A ciência política ensina-nos que o território é o palco onde se negoceiam os interesses da comunidade. No atual contexto, precisamos de uma visão que não se limite à gestão do imediato. É urgente discutir que modelo de sustentabilidade queremos: um onde a Aroeira e a Charneca sejam apenas dormitórios de luxo ou de passagem, ou um onde o crescimento económico se traduza em infraestruturas reais e numa descentralização eficiente dos serviços municipais.
O futuro de Almada não se joga apenas no centro da cidade ou na renovação do Ginjal. Joga-se aqui, entre o pinhal e o mar, na capacidade de integrarmos a nova dinâmica global com a identidade e o bem-estar local.
Como cidadãos, cabe-nos exigir que a política local seja menos sobre “fogo de artifício” e mais sobre a estratégia de longo prazo que o nosso território merece.