Visitar a Arrábida em 1903 (1)

Visitar a Arrábida em 1903 (1)

Visitar a Arrábida em 1903 (1)

, Professor
21 Janeiro 2026, Quarta-feira
Professor

Intitula-se “Uma Excursão à Serra da Arrábida” o opúsculo editado em Lisboa pela Academia de Estudos Livres em 1903, conjunto de três textos assinados por outros tantos autores: J. Cardoso de Sousa Gonçalves (1864-1946), responsável pelo primeiro capítulo, “Notícia histórica”; Francisco Luís Pereira de Sousa (1870-1931), que apresenta uma “Ideia muito geral da Geologia da Serra da Arrábida”; Guilherme A. Vidal Júnior, que estabelece o “Roteiro de Lisboa a Setúbal”.

Fundada em 1889, através da loja maçónica “Simpatia e União”, a Academia de Estudos Livres propunha-se desenvolver entre os seus membros “o gosto pelo estudo e pela ciência”, organizando conferências e visitas de estudo em prol da divulgação cultural e publicando os textos de algumas sessões e os roteiros de algumas visitas, de que são exemplos títulos como “O Castelo de Palmela – Breve Notícia Histórica” (1903) ou “Joaquim Silvestre Serrão e a Música Religiosa” (1906), para mencionar apenas os que cobrem esta região.

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Dos três textos que integram “Uma Excursão à Serra da Arrábida”, o mais extenso é o primeiro, que apresenta a serra, sobretudo na sua dimensão cultural, e motiva o leitor para fazer a visita, aliciando-o com a paisagem e com as histórias ligadas à Arrábida. Rapidamente procede à localização do promontório e menciona as espécies florestais que o povoam (alfarrobeira, sobreiro, azinheiro e medronheiro), deixando de lado a explicação do nome “Arrábida” com uma desculpa de quem não se quer meter em discussões alegadamente pouco proveitosas — “sobre a etimologia da palavra ‘Arrábida’, perdem-se os autores em conjecturas diversíssimas, cada uma obedecendo, mais ou menos, à fantasia. Ocioso nos parece, portanto, perder tempo em divagações sobre o assunto.” Assim resolvida a questão, é o tempo descritivo aproveitado para motivar o visitante através da paisagem, em dois parágrafos de observador rendido — “O panorama que se avista de vários pontos da serra é incomparável de beleza e pitoresco e só ele vale a canseira da ascensão e os incómodos da viagem. Poucas vezes a Natureza foi tão pródiga de perspectivas encantadoras como neste recanto da nossa terra, tão esquecido dos viageiros e abandonado dos conchegos da civilização.”

Depois deste olhar geral, segue-se a contemplação sobre mais específicos recantos: “Para qualquer lado que nos debrucemos do cume da serra, o espectáculo é fantástico, soberbo. Para o norte, são os frescos vergéis da formosa Azeitão, a fidalga Sintra do sul, os pitorescos grupos de aldeias, fechadas no cinto do copado arvoredo, o Tejo, faiscante de luz; ao longe, e ao fundo, a casaria de Lisboa, tão grandiosa, estendida preguiçosamente pelas suas sete colinas; para o sul e sudoeste, o vasto estuário do Sado, as ruínas de Tróia, as planícies do Alentejo, a vastidão do oceano, épico campo de luta da nacionalidade portuguesa. Dêem agora a estes vários quadros, cheios de brilho, a cor, a vida, a animação duma natureza em festa, emprestem-lhes os mil cambiantes de pintor de génio, e terão o motivo porque nos sentimos subjugados, porque nunca esquecemos a impressão recebida nos píncaros da serra, quando da primeira vez lá subimos…” A extensão da referência é considerável, mas vale por este olhar em círculo, ora para perto, ora para a distância, tanto para o pormenor como para o conjunto, numa tentativa de compor uma tela pela utilização da palavra, num desenho que vale como convite ou como desafio experimentado, haja em vista a marca pessoal que ficou no autor quando subiu a serra pela primeira vez.

Segue a apresentação da Arrábida pela narrativa do episódio do mercador Hildebrando, que, no século XIII, salvo da iminência de um naufrágio ao largo da Arrábida, vai originar o culto de Nossa Senhora da Arrábida a partir da chamada Ermida da Memória, virando a serra marco de religiosidade que Sousa Gonçalves acha que se fortificou no século XVI, quando o primeiro Duque de Aveiro, D. João de Lencastre (1501-1571), a abriu ao andaluz Frei Martinho de Santa Maria, que ali chegou com diversos companheiros, originando a fundação do Convento (1542). Passadas estas histórias, misturando-se a primeira com a lenda, ao leitor (ou visitante) é dada a conhecer a escultura em mármore “que se encontra encostada à frontaria do mosteiro”, ali mandada erigir em 1622 pelo terceiro Duque de Aveiro, D. Álvaro de Lencastre (1540-1626) — e não em 1662 pelo quarto Duque, como Sousa Gonçalves refere —, representando Frei Martinho “preso à cruz da mortificação. Os olhos estão fechados para a vaidade do mundo, a boca cerrada por cadeado, mostrando quanto era avaro de palavras, o peito com uma fechadura para que nele não entrem pensamentos terrenos. Numa das mãos sustenta uma tocha, a fé alumiando as consciências; na outra, as disciplinas com que se flagela.” Toda a simbologia remete para a austeridade e rigor que a comunidade arrábida punha no seu quotidiano, considerando o autor que ela “se tornou notável pelo rigor das privações que se impôs.”

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