Uma outra estória da Páscoa ou o mistério do homem que não morreu

Uma outra estória da Páscoa ou o mistério do homem que não morreu

Uma outra estória da Páscoa ou o mistério do homem que não morreu

9 Abril 2026, Quinta-feira
Investigador aposentado do LNEC Sociólogo. Militante do PCP

Naquele tempo era perigoso contrariar o mandato dos céus, e o deus que havia protegia os poderosos. A religião dos homens e a lei dos fortes eram defendidas por velhos sacerdotes e severos juízes. Bastava uma palavra infeliz, um ato qualquer incompreendido e a justiça haveria de encontrar um criminoso. O homem que tinha sido julgado sem dúvida cometera uma ofensa grave, mas não podia recordar-se do seu crime. Agora estava morto ou julgá-lo-iam como tal. A injúria dos homens é irreparável. Para quê regressar? O corpo foi entregue a José que o cobriu com um lençol fino que comprara, e trataram-no como a um morto. Também o centurião ao certificar a sua palidez convenceu-se de que se tratava de um cadáver.

Acordou naquela manhã envolto em ligas. Apenas podia mexer as mãos, e foi assim que se sentiu vivo. Por fim aceitou a consciência de que estava vivo, lá fora a luz do sol brilhava e pressentiu que outra vida o esperava. Mover a pesada pedra estava fora das suas possibilidades, o homem que tinha sido condenado rastejou para a fresta e, escavando com as poucas forças que lhe restavam, regressou ao mundo e à realidade dos vivos. Contemplou um amanhecer pela primeira vez, sem alguma missão especial a cumprir.

- PUB -

Estava perdido nestes pensamentos, quando um grupo de mancebos desviou a pedra da entrada para roubar os panos de linho aos cadáveres. Não se moveu, porque não é crime roubar a quem não precisa. Além disso, nunca se interessou pelas questões da lei ou não tivesse violado o sábado ao curar enfermos e a colher espigas para fazer pão diante dos fariseus. Recordava-se agora dos seus pecados. Enquanto os mancebos disputavam o linho, o homem que tinha sido condenado pensou como o amanhecer é belo, e olhou para a estrada e as anémonas cor de púrpura por onde os mancebos escapavam, atravessando depois os loureiros bravos.

O homem que tinha saudado a luz de um novo dia notou então que três mulheres se aproximavam, silenciosas como se viessem chorar a morte de alguém. Custava-lhe ainda enfrentar a luz de um novo dia, mas reconheceu Madalena. Atrás seguiam a mãe de Tiago e Salomé. O homem que não morreu tinha que manter o mistério do seu desaparecimento, ninguém o encontraria. Apenas Madalena, a beleza que o surpreendeu junto a um poço de água. Deveria, pois, saciar a sua sede? O filho de deus saberia amar? Suportaria, durante o resto da sua vida, conhecer o amor e o remorso de desejar uma mulher?

Amar é o maior perigo que pode acontecer a um homem! Madalena estava só na sua tenda. O homem que não morreu entrou sem alarde, e olhou para Madalena como quem desperta de um sono profundo. Sou apenas um homem, disse-lhe. Madalena reconheceu-o e voltou a tratar-lhe das feridas. O amor não precisa de palavras nem de orações. Sentiu o sangue latejar quando se deitou com Madalena. As mãos percorreram os rostos, e descobriu por que os humanos fazem amor conservando mútuo o olhar. É isto, dar a outra face! O homem que não morreu encontrou, finalmente, tempo para chorar. De alegria.

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não