Harry Markowitz, considerado o pai da Teoria Moderna do Portfólio, defende a diversificação como forma de reduzir o risco e otimizar o retorno. Desde então, este princípio tornou-se basilar na gestão de portfólios em grandes instituições, bem como um dos pilares do ensino nas melhores escolas de gestão e finanças em todo o mundo.
Porém, a diversificação, seja dentro da mesma classe de ativos ou entre classes distintas, leva frequentemente a incluir posições em que a confiança é menor, afastando o investidor das suas verdadeiras melhores ideias, meramente com o intuito de “diversificar por diversificar”.
Muitas vezes, determinados ativos são adicionados por razões periféricas — tendências passageiras, questões setoriais ou geográficas, ou regras mecânicas de alocação (por exemplo, 40% em obrigações e 60% ações, ou nenhuma posição acima de 10%) — não acrescentando valor efetivo, e reduzindo os potenciais retornos da carteira.
Tal como nos apresenta Philip Fisher, os investidores foram tão bombardeados com a ideia da diversificação que o medo de “pôr todos os ovos no mesmo cesto” os levou a investir muito pouco nas empresas que conhecem profundamente e muito mais noutras, sobre as quais não sabem praticamente nada. Nunca parece ocorrer-lhes (muito menos aos profissionais que os acompanham) que comprar uma empresa sem ter conhecimento suficiente sobre ela pode ser ainda mais perigoso do que ter uma diversificação insuficiente.
Peter Lynch chamou a este fenómeno diworsification: a dispersão excessiva do capital por demasiados títulos, incluindo alguns mal compreendidos ou pouco relevantes. O resultado? Uma carteira de menor qualidade, que dilui as posições verdadeiramente promissoras.
Em alguns casos, a diversificação poderá efetivamente diminuir o risco. Contudo, quando nos afasta dos ativos que conhecemos profundamente e que identificámos como subvalorizados, reduz também o retorno esperado da carteira e pode, inclusivamente, aumentar o risco, ao introduzir na carteira posições de qualidade significativamente inferior.
Muitas vezes funciona mais como uma proteção mental: sentimo-nos seguros e confiantes por seguir o que a teoria clássica e a maioria recomendam. Ao fazê-lo, os investidores acabam por procurar uma sensação de proteção contra a volatilidade, em vez de uma proteção efetiva contra o risco.
Mas que sentido faz afastarmo-nos das nossas três melhores ideias para alocar parte do nosso capital à nossa 26.ª melhor ideia? Podemos ter o mesmo nível de conhecimento e convicção sobre essa opção que temos sobre a primeira?
Com isto, não pretendo dizer que a diversificação seja uma ideia incorreta. Pelo contrário, é um princípio válido e útil na construção de um portfólio. O que questiono é a dogmatização da sua aplicação rígida e a qualquer custo, tratada como doutrina inquestionável, como se fosse sempre a melhor opção, independentemente do contexto ou do investidor. Esta abordagem quase religiosa do conceito, amplamente disseminada no discurso financeiro atual, nem sempre é a mais adequada para os investidores.
Adicionalmente, a diversificação costuma proporcionar resultados médios, revelando-se ideal para preservar a riqueza já conquistada, enquanto a concentração é, na maioria dos casos, o verdadeiro motor da sua construção.
Na nossa vida concentramos as nossas melhores escolhas nas coisas que realmente importam: a carreira em que apostamos anos de esforço, a casa onde queremos viver com conforto, a(o) companheira(o) que escolhemos com cuidado. Não diversificamos “por precaução” nestas áreas, porque reconhecemos que selecionar com convicção nos traz maior valor.
Por que razão, então, tratamos o nosso capital de forma tão diferente?
A concentração bem fundamentada permite canalizar o nosso capital para ideias em que existe uma verdadeira convicção, potenciando retornos que a dispersão tende a diluir. Quando surge uma oportunidade clara, é essencial que consigamos ter a capacidade de investir de forma significativa, sem limitações percentuais arbitrárias.
No entanto, esta abordagem exige um elevado grau de conhecimento, pois investir de forma concentrada implica compreender profundamente o ativo e decidir a que preço se está disposto a adquiri-lo.
Como diria Charlie Munger: “O segredo dos investimentos é encontrar situações onde é sábio e seguro não diversificar.”
Um bom portfólio constrói-se, acima de tudo, pela qualidade das decisões que o compõem, e não pelo número de posições. Quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade.
A questão é — estamos dispostos a pagar o preço da concentração?
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As informações aqui apresentadas são de caráter geral e não constituem recomendação ou aconselhamento financeiro. Trata-se apenas da opinião do autor.