O país chega à segunda volta das presidenciais num ambiente saturado de ruído. Entre indignações instantâneas e promessas de rutura, corre o risco de esquecer o essencial: a escolha de um Presidente não é um desabafo — é uma decisão institucional. E, nesta eleição, a alternativa é particularmente clara.
De um lado, está quem representa estabilidade, responsabilidade e respeito pelas regras do jogo democrático. Não se trata de imobilismo, mas de compreender que a Presidência é um pilar de equilíbrio num sistema que já tem conflitos suficientes.
Um Presidente que sabe unir, que não transforma divergências em guerras culturais e que garante previsibilidade institucional é, hoje, um ativo raro.
Do outro lado, surge um discurso que vive da contradição. O principal argumento é derrotar o “socialismo”, apresentado como inimigo absoluto. Mas basta olhar para as propostas para perceber o paradoxo: muitas implicam mais Estado, mais controlo central, mais intervenção. É a velha fórmula do populismo contemporâneo — proclamar liberdade enquanto se reforça o poder do Estado para impor soluções rápidas e centralizadas. A retórica anti‑sistema convive, afinal, com um programa profundamente estatista.
A isto junta‑se a promessa vaga de uma “Quarta República”. Não se sabe o que significa, como se concretiza ou que garantias oferece. Sabe‑se apenas que nasce de uma lógica de confronto permanente, de um “nós contra eles” que fragmenta o país e transforma adversários em inimigos. A erosão democrática não começa com golpes; começa com slogans. Primeiro descredibilizam‑se instituições, depois atacam‑se mediadores, por fim tenta‑se capturar o próprio regime. Vimos este filme noutras geografias — e nunca acaba bem.
É por isso que esta segunda volta exige lucidez. Quem valoriza liberdade económica, segurança jurídica e estabilidade institucional sabe que aventuras constitucionais são sempre más para o país. Reformar exige método e responsabilidade; destruir exige apenas ruído. E o ruído, por muito sedutor que seja no imediato, cobra sempre um preço elevado no futuro.
Portugal não precisa de salvadores nem de revoluções improvisadas. Precisa de um Presidente que garanta segurança institucional, que respeite a Constituição e que não transforme a chefia do Estado num palco de agitação permanente. Nesta segunda volta, a escolha é simples: entre segurança e aventura, o país só tem a ganhar escolhendo estabilidade.