Reabilitação com alma: proteger as casas e as pessoas

Reabilitação com alma: proteger as casas e as pessoas

Reabilitação com alma: proteger as casas e as pessoas

20 Julho 2026, Segunda-feira
Professora e Investigadora da Universidade de Aveiro

Reabilitar bairros históricos não pode limitar-se a recuperar imóveis ou preservar fachadas. A verdadeira reabilitação tem de proteger também a comunidade que lhes dá vida, a memória coletiva e o sentimento de pertença que fazem desses lugares muito mais do que um conjunto de edifícios.

Nos processos de reabilitação, a atenção concentra-se, quase sempre, nas exigências técnicas impostas aos imóveis. Muitas vezes, a complexidade dessas exigências, associada aos custos que acarretam, acaba por dificultar a permanência dos moradores e das famílias que ali construíram a sua história.

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É verdade que, nos últimos anos, muito se fez para recuperar os centros históricos. Reabilitaram-se edifícios, protegeram-se imóveis e estabeleceram-se regras para salvaguardar o património construído. Tudo isso é importante. Mas continua a faltar o essencial: cuidar das pessoas e das histórias que dão alma a estes lugares.

Porque um bairro histórico não é um museu ao ar livre. É um lugar vivo. É feito de vizinhos que se conhecem, de famílias que ali cresceram, de festas, ofícios, tradições, memórias e afetos.

Sem essa vida, o bairro pode conservar a sua beleza arquitectónica. Mas deixa de ser verdadeiramente uma comunidade de pertença: um bairro.

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O problema está à vista. Mais do que a valorização dos bairros históricos, são muitas vezes as exigências impostas, não aras vezes, pelos pareceres técnicos que tornam a reabilitação incomportável para os antigos moradores. Entre custos, condicionamentos e sucessivas imposições, muitos acabam por abandonar as casas onde sempre viveram – ou deixam de poder regressar a elas .

É por isso que a reabilitação urbana não pode limitar-se ao património construído. Tem de reconhecer e proteger a comunidade de pertença: as pessoas, os laços de vizinhança, as memórias, os costumes e os modos de vida que fazem de um bairro um lugar único. Essa riqueza não se encontra apenas nos arquivos ou nas placas evocativas; vive no quotidiano de quem continua a dar sentido àqueles lugares de vida.

Esta convicção nasce também da minha própria história. Sou filha do Bairro das Fontainhas, em Setúbal, um antigo bairro de pescadores. Foi ali que, no final do século XIX, o meu avô Inácio, vindo da Murtosa, lançou raízes. Foi ali que nasceu o meu pai, João Sacristão, e onde viveram várias gerações da nossa família. Aquela casa nunca foi apenas um edifício. Foi um lugar de trabalho, de fé, de solidariedade e de memória.

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Hoje, ao despedir-me dessa casa, sinto que não perco apenas um imóvel. Perco um lugar onde a história da minha família podia continuar a ser vivida. É essa experiência que me leva a defender uma reabilitação que preserve não só as paredes, mas também a comunidade que lhes deu vida.

Setúbal já deu um exemplo importante ao reconhecer o valor da Festa de Tróia, nascida no seio desta comunidade piscatória. Mas esse reconhecimento deve ir mais longe. Se valorizamos as tradições, a religiosidade popular, devemos também valorizar as pessoas e as famílias que as criaram e transmitiram ao longo das gerações.

Arquitetos, urbanistas, autarcas e decisores políticos têm aqui uma responsabilidade acrescida. Reabilitar um bairro é mais do que recuperar edifícios: é criar condições para que a comunidade de pertença possa continuar a viver, transmitindo às gerações futuras a memória que torna aqueles lugares verdadeiramente únicos.

Uma cidade só honra verdadeiramente o seu património histórico quando protege, ao mesmo tempo, os edifícios que o identifica e a comunidade que lhe dá sentido. Porque uma cidade começa a perder a sua alma no dia em que as casas permanecem, mas já ninguém lhes podem chamar “a nossa casa”.

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