Quando olhamos apenas para o comportamento, podemos deixar de ver o nosso filho

Quando olhamos apenas para o comportamento, podemos deixar de ver o nosso filho

Quando olhamos apenas para o comportamento, podemos deixar de ver o nosso filho

30 Julho 2026, Quinta-feira
Psicóloga clínica e psicoterapeuta psicanalítica

Enquanto pais, é natural que nos preocupemos com aquilo que vemos.


A criança que faz birras, que mente, que bate, que parece demasiado sensível, que se isola, que está sempre a pedir atenção ou que, de repente, começa a queixar-se de dores de barriga sem uma causa médica aparente.

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São estes comportamentos que, quase sempre, mais preocupam os pais. E compreende-se. Perturbam a rotina familiar, desafiam os adultos e despertam a sensação de que “alguma coisa não está bem”.


Mas, em consulta, percebemos rapidamente algo muito importante da infância: o comportamento raramente é o problema. É, muitas vezes, a forma que a criança encontrou para expressar aquilo que ainda não consegue compreender, regular ou colocar em palavras.


Ao contrário dos adultos, as crianças nem sempre conseguem dizer “estou ansiosa”, “tenho medo”, “sinto-me insegura” ou “preciso mais de ti”. O seu mundo emocional ainda está em construção. Por isso, aquilo que ainda não conseguem pensar ou verbalizar acaba frequentemente por surgir através do comportamento.

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Isto não significa que todos os comportamentos devam ser aceites. Os limites continuam a ser fundamentais para o desenvolvimento. Mas existe uma diferença importante entre corrigir um comportamento e compreender aquilo que lhe deu origem.


Uma criança que agride pode precisar de aprender que não pode bater. Mas também precisa de um adulto que tente perceber o que aconteceu antes desse comportamento surgir. Uma criança que mente precisa de compreender a importância da verdade. Mas vale a pena perguntar se a mentira nasceu do medo de desiludir, da vergonha ou do receio da reação dos pais. Uma criança que faz uma birra não precisa apenas de um limite. Precisa também de um adulto que a ajude a regular a emoção que lhe deu origem.


Quando a única resposta é o castigo, o medo ou a repetição de que “isso não se faz”, o comportamento pode desaparecer naquele momento. A emoção que lhe deu origem, essa, tende a permanecer.

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Educar torna-se, por isso, um exercício exigente. Exige tempo, disponibilidade e capacidade para tolerar emoções difíceis, tanto as da criança como as nossas. É, muitas vezes, mais fácil interromper um comportamento do que compreender o sofrimento que lhe está associado. No entanto, é precisamente nessa compreensão que reside a verdadeira prevenção. Quando uma criança encontra, na relação com os adultos, ajuda para compreender e regular aquilo que sente, deixa de precisar de recorrer a determinados comportamentos para o expressar.


Compreender não significa desculpabilizar nem deixar de colocar limites. Significa reconhecer que o comportamento é apenas a parte visível de uma realidade emocional muito mais complexa. E é quando conseguimos olhar para além dele que promovemos mudanças verdadeiramente duradouras.

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