Os versos que a escola esqueceu

Os versos que a escola esqueceu

Os versos que a escola esqueceu

13 Fevereiro 2026, Sexta-feira
Montijo, Estudante de Matemática Aplicada à Economia e à Gestão no ISEG

A ideia de futuro cansa-nos, não nos corre já nas veias. E a sua eventual extinção não parece morder-nos os calcanhares. Esta maré generalizada de deixar para amanhã o que podíamos ter feito ontem rompe, seriamente, com muito daquilo que o nosso passado nos ergueu, notando que nos disse Che Guevara que «Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética».

Escreveu Ary dos Santos «As portas que Abril Abriu», estas que não estão, por enquanto, fechadas, mas que nadam, contudo, em socalcos de pó, perdidas na memória de uma geração que lutou, que nos entregou a liberdade, como uma criança a crescer, numa bandeja lavada em suor, rompida do ventre de um cravo.

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Cantou José Afonso «O povo é quem mais ordena» e a verdade é que este parece já nada querer dispor, entregando-se ao vazio do «Vento que Passa», ao qual perguntava já Adriano de Oliveira notícias deste nosso país, mergulhado, outrora, em vimes de ideias distorcidas e enviesadas.

Este obsoleto Portugal suicidado renasceu da podridão de propagandas pintadas em rios de mentiras, que José Mário Branco descreveu como «Um sonho mau que já passou» e como «Um mau bocado que acabou». Caminhamos, conquanto, para um juvenil ressuscitar de pensamentos desviados e de ideais perturbados.

Creio, à luz dos conhecimentos de que hoje disponho, que a muitas das situações pelas quais passamos não podemos atribuir um culpado claro e efetivo, mas um determinado conjunto de fatores que para o caso em questão contribuiu. E este é precisamente um deles.

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Neste sentido, ao passo que as comunidades mais jovens desvalorizam a história que os faz hoje ser, estar, pensar e falar, aqueles que têm, nas suas próprias mãos, o poder de rever e adaptar a educação não o aplicam.

Que é feito destas guelras de glória e robustez? Que é feito desta sede de transformar?

Onde andam estes poetas? Praticamente nenhum deles mora nos dilatados programas da disciplina de Português, no Ensino Básico ou Secundário, que, apesar de, incontestavelmente, nos alargarem os horizontes, deixam por divulgar tantos outros.

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Face a esta gralha gravíssima, que se me surge como o rejeitar de uma mãe, de uma força motriz, de uma rampa para a vida como a sabemos, acredito que tardam ainda diversos temas por despolitizar. Há que declamar estes textos e ensinar aquilo que estas linhas suportam sem que se olhe simplesmente às raízes políticas que lhes são intrínsecas, reforçando, pelo contrário, o papel que conceberam no nascer da mudança, da fuga a um passado doente. 

Pelas palavras de Ary, «Cantar é ternura, escrever constrói liberdade e não há coisa mais pura do que dizer a verdade». Afinal, de que serve ensinar literatura, se deixamos constantemente de fora aqueles que escreveram com a vida inteira?

Nenhum dos sonhadores citados nos chega enquanto estudantes. Mas continuarão a entrar nas salas, de uma forma ousada e repentina, sempre que alguém disser o que pensa sem pedir licença.

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