Todo o trabalho levado a cabo por Álvaro Arranja ao longo dos anos em torno dos acontecimentos ocorridos em Setúbal nas greves do início da República justifica que Diogo Ferreira abra esta obra, “Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres” (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia), com uma saudação “em memória do professor Álvaro Arranja”, justificando que foi o “historiador que contribuiu para que os trágicos acontecimentos narrados nesta obra fossem preservados na memória coletiva”.
Neste trabalho, a investigação vai até ao ponto de quase nos fazer a reportagem circunstanciada do que aconteceu naquele 13 de Março, bem como nos fornece uma completa identificação das vítimas, trabalho possível pela consulta atenta de arquivos, pela leitura comparada dos relatos e opiniões transmitidos pela imprensa da época, fosse ela local ou nacional, e pela procura de documentos relacionados com os eventos, por vezes com interpretações divergentes. Para o leitor, fica a fita do tempo, mais ou menos circunstanciada, ilustrada com recortes jornalísticos e com documentação fotográfica diversa, além do recurso ao traço do pintor Nuno David, que idealiza o cenário do acontecimento e faz corresponder a imagem aos retratos escritos então feitos.
O leitor conhece os antecedentes, dados pelo ambiente vivido no seio da indústria conserveira, assim como contacta com o ambiente político na cidade — greve iniciada em 21 de Fevereiro, reclamando aumentos salariais, denunciando abusos sexuais sobre as jovens trabalhadoras e dando a conhecer as duras condições de trabalho; polémica que envolveu Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira na condenação desta greve e no esvaziamento do seu sentido, mesmo por interesses particulares, pois uma das fábricas pertencia a uma irmã de Paulino de Oliveira; descontentamento com a nomeação para administrador do concelho de alguém que ocupara o mesmo cargo na fase final da Monarquia; intensa acção dos representantes sindicais e da imprensa sindicalista. Depois, é apresentada a reconstrução dos acontecimentos, possibilitada pelo cruzamento das diversas informações publicadas, bem como são identificados os feridos e fornecidas informações biográficas sobre os mortos. Finalmente, o leitor contacta com os acontecimentos dos dias seguintes, sobretudo as manifestações de protesto “contra as fatalidades ocorridas à beira do Sado”, lê o relatório da sindicância realizada para averiguar as responsabilidades envolvidas nos trágicos acontecimentos, conhece a opinião complacente do Ministro do Interior António José de Almeida e as consequências resultantes do apuramento de responsabilidades.
Com este trabalho, divulgado quando passam 115 anos sobre os acontecimentos relatados, Diogo Ferreira vai mostrando como fez a investigação, não só porque indica as referências de que partiu, mas também porque mapeia os caminhos que percorreu, quer nas perguntas que motivaram a investigação, quer nas dúvidas que se mantiveram ao longo desse caminho, assumindo a descoberta de algumas respostas e a falta de algumas explicações. Aspecto notável é o cruzamento das informações, venham elas da imprensa (seja generalista ou politicamente comprometida, seja local ou nacional), partindo dos textos noticiosos (ora cautelosos, ora pormenorizados) ou dos artigos de opinião, ou venham dos documentos oficiais ou de relatos de memórias entretanto publicados ou recolhidos. Fica o leitor com a sensação de estar perante a reportagem que faltava, trabalho que noticia, questiona, comenta, lança pistas de interpretação e deixa espaço para a formulação de opinião, sendo-lhe ainda permitido conviver com algumas das fontes, visitando documentos importantes do processo, que ajudam a contar toda esta história.
A história, sobretudo a história local, muito se enriquece com esta investigação, “Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres”, de Diogo Ferreira, um útil contributo para o avivar da memória, quer pela dimensão pedagógica sobre o método no trabalho do investigador, não escondendo as dificuldades do caminho e as pequenas descobertas que vão fazendo um todo, convidando mesmo o leitor a participar na investigação pelas perguntas que vai pondo, quer pelo conhecimento que traz e partilha. Uma boa forma, também, de assinalar os 115 anos!