Se houvesse “palavra do ano” em 1911, a designação “fuzilamento” poderia constar no leque das palavras a concurso, de tal forma os jornais contaram o que se passou em Setúbal nesse 13 de Março de 1911 — a expressão “Fuzilamentos de Setúbal” circulou, de resto, na altura, na imprensa, escolhida não por acaso, mas para assinalar a brutalidade da repressão sobre os movimentos grevistas, que levou à morte de António Mendes e de Mariana Torres. A opção pela palavra “fuzilamento” não foi ingénua, pois pressupõe execução sumária ou eliminação do opositor quase sem defesa, não sendo de estranhar, por isso, que esta prática esteja ligada a períodos históricos de conflitos armados, de revoluções e de regimes autoritários, momentos em que a instabilidade social dita as regras. A história do que se passou foi agora reavivada por Diogo Ferreira no livro “Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 – A História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres” (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia).
Se recorrermos à edição de 16 de Março de 1911 do jornal “Germinal”, que se publicava em Setúbal, percebemos bem o que significou para o movimento operário da altura a morte destas duas figuras, mortas à luz do dia, à vista de todos, e enterradas de madrugada, para evitar a agitação popular: “O sangue que em Setúbal correu impetuoso, saindo em borbotões dos corpos de filhos do povo, não se perdeu. As suas gotas lançadas à terra, vermelhas e fortes, fecundarão heróis sublimes, de alma revolta e corações simples, com o espírito erguido para o futuro numa evocação à aurora de justiça que vai despontar.” Este tom metafórico, visando transformar as duas vítimas em heróis reconhecidos, desaparecia no final do artigo, quando se referiam os “instigadores” da acção — “os que feriram, como os soldados, e os que provocaram, como os industriais e o administrador” do concelho —, desafiando-os a suicidarem-se, com uma explicação provocatória: “o suicídio não os reabilitaria, mas tornava-os esquecidos, a terra consumiria os seus corpos e da sua memória ficava apenas uma vaga lembrança. Só assim provariam que eram homens, criaturas normais, moralmente completas.”
O caso foi muito comentado e marcou intensamente o debate, sobretudo porque a República fora instituída cinco meses antes e era uma esperança para as mudanças, e Setúbal, tendo sido um dos primeiros locais a acompanhar a revolta, viu, naquele momento, o regime republicano a virar-se contra o desejo de melhoria de vida do operariado, contra a prática da greve e contra o direito de manifestação. De tal forma foi significativo o acontecimento das mortes em Setúbal nesse 13 de Março que, pouco mais de três décadas depois, em 1945, Alves Redol mencionava o assunto na conversa entre personagens do seu romance “Os Reinegros”, obra que o autor esteve impedido de publicar durante quase trinta anos, pois só foi dada a ler ao público, já como obra póstuma, em 1972 (Redol falecera em 1969), narrativa que gira entre 1907 e 1918, em torno do desmoronamento das esperanças que a República poderá ter significado — numa loja, no Bairro Alto, vários amigos conversavam sobre os acontecimentos, perguntando um, ironicamente: “Quando se pede pão, dão-se balas? Está certo? Duas mortes e não sei quantos feridos…” Logo a seguir, outro acrescentava: “A República já foi. Durou dois dias na Rotunda e pouco mais.” Este último comentário expressava bem a decepção que chegara com a falta de cumprimento das promessas dos revolucionários…
Na história local, o caso das mortes de António Mendes e Mariana Torres mereceu durante muito tempo referência fugaz, mas tornou-se objecto de investigação mais aprofundada a partir do momento em que o historiador Álvaro Arranja (1960-2025) publicou, em 2009, a obra “Anarco-Sindicalistas e Republicanos — Setúbal na I República”, ou o ensaio com que contribuiu, em 2010, para o livro “Setúbal — Roteiros Republicanos”, coordenado por Albérico Afonso, e, sobretudo, quando, em 2011, divulgou o estudo “Mataram Mariana… — Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911”, um título que sintetiza o divórcio entre a política e os populares, na sequência da insatisfação resultante da repressão sobre as formas de manifestação levadas a cabo pedindo melhorias nas condições de vida e de trabalho. Álvaro Arranja iniciava, de resto, este seu estudo, chamando a atenção para a importância que esse facto teve, apesar de pouco se saber: “Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi (…) foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da Primeira República.”
A investigação de Álvaro Arranja constituiu um importante contributo para a memória desse tempo e várias manifestações se sucederam a partir daí para alimentação da memória, designadamente, a construção da escultura que evoca Mariana Torres, da autoria de Jorge Pé-Curto, inaugurada no Largo da Fonte Nova há uma década, em Março de 2016.