A operação “Epic Fury” estava prevista como uma “ação relâmpago” destinada a subjugar o regime iraniano. Contudo, acabou por se converter num impasse arriscado. A reação de Teerão não travou somente a ofensiva, como expôs o excesso de confiança dos dirigentes americanos e israelitas.
A estratégia assentava na convicção de que o Irão seria um “castelo de cartas” prestes a ruir sob pressão militar e uma subsequente e ilusória revolta popular. Porém, a realidade, de momento, revela-nos o contrário: o custo global do conflito dispara, enquanto o regime aparenta firmeza.
De igual forma, Washington e Telavive alicerçam as suas estratégias em pressupostos distintos e até contraditórios. Enquanto Israel aparenta tolerar o caos e a fragmentação do Irão como uma vantagem para a sua segurança, os EUA necessitam de um Irão funcional para evitar o colapso económico global e uma crise de refugiados sem precedentes.
A história recente do Médio Oriente e do Norte de África demonstra que é muito mais fácil destruir um Estado do que reconstruí-lo. Iraque, Síria e Líbia constituem exemplos recentes e marcantes das consequências dos vazios de poder. O risco de transformar o Irão numa “Líbia à escala colossal” representa a maior ameaça aos interesses ocidentais, sobretudo pelas implicações económicas e migratórias.
Não menos desconfortável é a posição dos países árabes do entorno. Com drones e mísseis iranianos a atingirem infraestruturas petrolíferas em todo o Golfo, países como a Arábia Saudita, EAU, Kuwait, Bahrein ou até o Qatar, procuram sem êxito distanciar-se da ofensiva americana para evitar tornarem-se alvos diretos, enquanto em privado anseiam pelo fim do regime iraniano.
Como observou Fareed Zakaria no programa “GPS” da CNN, a liderança do Presidente Trump assemelha-se à de um “músico de jazz”: atua por instinto e improvisação tática, mas sem uma partitura (estratégia) para o “dia seguinte” após os ataques de decapitação que eliminaram a liderança iraniana.
A isto soma-se a chamada “guerra de atrição económica”, que favorece o Irão. A diferença abismal de custo entre os drones Shahed e os mísseis interceptores é um exemplo claro. Essa “matemática da destruição” não visa apenas o alvo físico, mas sobretudo o desgaste financeiro e logístico do adversário.
Resta saber se a administração Trump ponderou o “dia seguinte”. Paralelamente, Rússia e China observam atentamente, avaliando se os EUA ficarão atolados no Médio Oriente, enfraquecendo a proteção da Ucrânia e de Taiwan.
Do ponto de vista económico, com o bloqueio seletivo do Estreito de Ormuz, o preço do barril de petróleo atinge níveis que ameaçam a estabilidade económica da Europa e do mundo. A própria transição energética, antes encarada por muitos como uma mera meta climática, assume agora o estatuto de prioridade estratégica para o Ocidente.
A questão que se impõe neste momento é: como sair deste conflito sem deixar um vazio de poder regional nem mergulhar o mundo numa recessão?