A incursão militar dos Estados Unidos na Venezuela, em 3 de janeiro deste ano, não é apenas ilegítima: é predatória, violenta e impune. Mesmo que o atual líder venezuelano não tenha a áurea de legitimidade, e de autenticidade revolucionária, de Hugo Chávez, a invasão externa não se justifica. A soberania de um povo não pode ser subordinada aos apetites imperialistas discricionários, mesmo quando se travestem de “democratização” (para quando eleições livres?) e da “salvação de um povo” – mas quem salvará o povo dos seus salvadores?.
Voltamos a uma era medieval colonizada pelo medo, dominada pelos Senhores da Guerra, onde o poder da força se sobrepõe a qualquer norma social ou entendimento humano. O que nos torna humanos — a cooperação, o diálogo, a resolução coletiva de problemas visando o bem da imensa maioria, como idealizou Jeremy Bentham — é vandalizado, substituído pelo estrépito da violência, pelo cálculo frio da destruição e do terror. Ceder aos apetites territoriais de ânsias imperialistas é abrir a porta ao espectro hobbesiano da guerra de “todos contra todos”. A lógica do “estado natural” da sociedade humana autoriza incursões, usurpações e pilhagens. A reabilitada doutrina Monroe é apenas a formalização desta barbárie: que se segue à Venezuela? O México, a Colômbia, o Canadá, a Gronelândia, ou a ilha cubana que tem sido um espinho cravado na garganta do imperialismo norte-americano?
Quando a globalização recua é o feudalismo que avança, revelando os horrores que pensávamos poder superar sob os alvores de um novo milénio: populações entregues à seleção natural pela fome e as doenças. Este é o “capitalismo que mata”, nas palavras do Papa Francisco. Sob a máscara darwiniana da sobrevivência do mais apto, a violência torna-se um instrumento privilegiado para a estratificação social e a nova ordem mundial; de um lado “nós”, os vitoriosos, e do outro os vulneráveis, os expostos ao terror, enfim… os infra-humanos! Os trabalhadores sem direitos! Como os imigrantes, os idosos, os doentes, as populações pendulares das periferias!
Contudo, é fácil conquistar territórios pela força bruta, muito mais difícil é governá-los. A ocupação da Venezuela, como da Ucrânia, como dos povos que Israel oprime e invade, carece de futuro. A destruição de infraestruturas e de regimes políticos, a chacina e a humilhação dos povos não cura as feridas históricas nem promove justiça social.
De onde virá a esperança? Que mundo irá renascer das cinzas dos territórios dizimados, dos negócios e dos Senhores da Guerra? Um comunalismo planetário? Um comunalismo feito da partilha dos recursos, pelo diálogo e a promoção da paz? Ou, pelo contrário, continuaremos prisioneiros de um novo ciclo de tirania que parece eternizar-se? Eis o tempo dos assassinos. Importa pôr cobro a isto pela emancipação social, pela luta dos povos, pela resistência nestes tempos tenebrosos: ‘mesmo na noite mais escura há sempre alguém que diz não’.