23 Maio 2024, Quinta-feira

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O nosso Abril dos 50 anos (uma 3ª edição)

O nosso Abril dos 50 anos (uma 3ª edição)

O nosso Abril dos 50 anos (uma 3ª edição)

A uma pergunta como que incrédula: “Sim ou não na década de 60 os Estados Unidos da América eles próprios trataram de afundar um vaso da sua marinha de guerra fundeado no porto de Saigão para pretextar o início dos ataques a Norte?”, houve o tempo da resposta: “E então a Holanda, em 1933?”, sustentada na evocação daquela “época em que é possível um tal campear do cinismo que um ministro holandês propõe, numa conferência internacional, a interdição do bombardeamento aéreo do inimigo em tempo de guerra, para que alguns dias depois um avião holandês lance, sobre um barco holandês, em tempo de paz, uma bomba que semeia a morte a bordo”, tal como denuncia Bento de Jesus Caraça na Conferência “A cultura integral do indivíduo – um problema central do nosso tempo”, proferida em Lisboa em 1933.
Na segunda edição do texto (1939) o matemático e militante comunista enfatiza este facto em nota de rodapé, acrescentando que “o cinismo campeava já, mas não tinha sido ainda arvorado em método político. Largo caminho andado nestes seis anos” – e assim, uma vez mais, eis-nos absorvidos naquilo a que poderíamos chamar uma jóia da capacidade de síntese política num estilo bem caro ao humanismo de Bento de Jesus Caraça: “Época em que se verifica um tão grande desprezo pela existência alheia que na sombra se prepara, metodicamente, sistematicamente, cientificamente, a destruição do homem; mas em que ao mesmo tempo existe uma tal admiração pelo corpo humano que, num vasto movimento de cultura física, ele se enaltece e glorifica no que tem de belo e nobre – antítese simbólica do nosso tempo: preparação da guerra química e salão do nu fotográfico”.
O “realismo explosivo” de Gustave Courbet, que recuperou esse “sentido de dignidade e majestade do corpo humano que se tinha perdido desde Rembrandt” (J. Pijoan, in História da Arte, Edições Alfa), só pela cor podia fazer-se escola. Nasceu, grosso modo, com o advir da Comuna, que do pintor fez delegado de Belas-Artes e responsável pelo derrube da Coluna do Grande Exército com 44 metros e construída em plena Praça de Vendôme com o bronze de 1200 canhões tomados aos inimigos que simbolizava precisamente, aos olhos dos revolucionários, a exaltação do belicismo napoleónico.
A partir de 1873 a recuperação burguesa, com o marechal Mac-Mahon na Presidência da República, conduziu Courbet ao desterro na Suíça, onde morreu passado o antepenúltimo domingo 146 anos.
Bento de Jesus Caraça foi preso em 1946, dois anos antes de falecer com a saúde desfeita. Nenhuma cor contra a guerra lhe era indiferente. Não podíamos deixar de plasmar, nesta nossa 3ª edição (ou 4ª), achamos, o nosso Abril dos 50 anos.

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