A 9 de março, um novo Presidente da República assumirá funções.
Encerra-se um ciclo de dez anos dominado pela figura inconfundível de Marcelo Rebelo de Sousa. Este período será único, tanto pelo contexto histórico, como pela personalidade singular, com os seus méritos e excessos.
A especificidade do modelo constitucional luso confere ao Chefe de Estado um estatuto raro no concerto das democracias. Não é um monarca, dada a sua natureza republicana. Não é uma escolha indireta, pois advém do voto direto dos cidadãos. Tampouco lidera o Governo, visto não sermos um regime presidencialista. Finalmente, não comanda a gestão da coisa pública porque o semipresidencialismo português impede que o Presidente seja o eixo central da governação, ao contrário do figurino francês.
Esta singularidade permite ao titular do cargo situar-se acima da barganha partidária, preservando a sua autoridade moral e uma capacidade de mediação através da chamada “magistratura de influência”. Poucos compreenderam tão bem esta “originalidade” quanto Marcelo. Desempenhou o papel com uma fluidez impressionante e frenética, mantendo-se fiel a si próprio, mesmo nas nuances mais contraditórias.
Nesta década, assistimos a uma fusão invulgar entre a sua vasta cultura, uma formação de elite e uma intuição política apurada, por vezes exercida com frio pragmatismo. Esta capacidade analítica deu-lhe um peso político que excedeu até as competências escritas na Lei Fundamental. O respeito que impunha não advinha apenas do cargo, mas do reconhecimento generalizado da sua agudeza intelectual.
A sua passagem por Belém dividiu-se em dois momentos distintos. No mandato inicial, foi o pilar da coesão, trabalhando para legitimar a “geringonça” e tranquilizar os parceiros externos. Foi uma época de consenso e de pacificação. Já o segundo mandato foi mais turbulento. O fim abrupto da maioria absoluta e alguns atritos com o executivo Montenegro desgastaram a sua imagem.
Marcelo acabou por espelhar o próprio sistema: brilhante na retórica e no saber, mas preso à inércia do cargo presidencial.
O percurso de Marcelo está colado, de modo indelével, aos tempos conturbados: das tragédias dos incêndios e da crise pandémica ao crescimento do populismo e à insegurança internacional. Nestes períodos alterados, o Presidente personificou o conforto do Estado, revelando uma capacidade de empatia insigne perante o sofrimento popular, mesmo no presente momento, com um sucessor já eleito, diante da calamidade resultante dos temporais.
Um ponto mais divisivo foi a sua inclinação intrínseca e irresistível para a análise política. Ao agir como um analista permanente da atualidade, Marcelo correu o risco de desgastar o peso da sua voz, deixando que mensagens pedagógicas se diluíssem no imediatismo das notícias.
Na hora de balanço, resta a imagem de um Presidente excecional e multifacetado que, perante o otimismo ou a crise, nunca se ausentou.
Portugal despede-se de uma figura irrepetível. Obrigado Marcelo!