No Sábado passado estava em casa, quando a Mamma me telefonou toda contente a informar-me que estava a começar o Festival da Canção e logo a abrir, com um grupo a interpretar Cante Alentejano.
Este grupo musical alentejano intitulado “Os Bandidos do Cante”, são actualmente um fenómeno de popularidade, ao interpretar o tradicional Cante Alentejano de uma forma mais moderna.
O grupo acabou por vencer o Festival com o tema “Rosa”, garantindo o direito de representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, a realizar na Áustria.
O quinteto é formado por quatro amigos: Duarte Farias, Francisco Pestana, Francisco Raposo, Luís Aleixo e Miguel Costa.
As minhas ligações ao Alentejo são muito fortes; o meu avô materno, o Avô Carlos, era natural de Vila Viçosa, tendo-se radicado em Setúbal no início do século XX. Era militar de carreira e esteve colocado em Angola, durante a 1ª Guerra Mundial.
O Avô Carlos era um homem muito inteligente, muito bom e extremamente afectivo.
As primeiras recordações que tinha da sua infância, era de Vila Viçosa, nos finais do século XIX. Aí a quinta dos meus bisavós Generosa e Filipe, localizava-se paredes meias com a Tapada Real; daí que o Avô Carlos se lembrava de contactar de perto com a mãe do rei D. Carlos, D. Maria Pia de Saboia, que era italiana e com o próprio rei.
Vitoriano de gema, tinha um coração muito grande, tal como a grande maioria dos alentejanos.
Deixou muitas saudades. E gostava muito de ouvir o Cante.
A Avó Júlia, quando ouvia o Cante, dizia sempre que estavam “a encomendar as Almas”, decorrente da enorme intensidade interpretativa do Cante Alentejano.
Em 2014, a UNESCO considerou, e muito bem, o Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A origem do Cante Alentejano é incerta, sendo passada de voz em voz pelos camponeses, ao longo de gerações, enquanto trabalhavam nos campos do Alentejo, ou também quando os homens se reuniam para descontrair ou se juntavam para cantar em público nas festividades.
Em casa, o Cante Alentejano era cantado essencialmente por mulheres.
Actualmente, ainda se houve o Cante espontâneo em colectividades e cafés.
O Cante Alentejano reveste-se de uma dimensão sócio-cultural muito forte, hoje e desde sempre. Só assim se justifica a sua capacidade de transmissão geracional, unindo pessoas de diversas faixas etárias.
O Cante é um canto coral, podendo também ser acompanhado por instrumentos musicais. O ponto e o alto são as duas vozes solistas fundamentais que estruturam esta música polifónica. O ponto (voz mais grave) inicia a música, definindo o tom e a melodia. Logo após, o alto (voz mais aguda) duplica a melodia com ornamentos, guiando o grupo e destacando-se sobre o coro.
Terminadas as estrofes, pode o ponto recomeçar com uma nova deixa, seguindo-se o mesmo conjunto de estrofes.
Este ciclo repete-se o número de vezes que os participantes desejarem. Esta característica repetitiva, assim como o andamento lento e a abundância de pausas, são elementos característicos do Cante.
No Cante Alentejano, os temas das canções podem ser alegres ou tristes, dando-se a conhecer o que vai na alma, a melancolia, as saudades, o amor, as vontades e as recordações da terra onde se nasceu. existindo, inclusivamente, canções irónicas e humorísticas.
Seja como for, as vozes vibrantes encantam quem as ouve já há séculos.
Existem grupos que se reúnem frequentemente para ensaiar o repertório a apresentar em festas, feiras e concursos.
O Cante Alentejano tem forte presença em Setúbal, evidenciada pelo encontro anual “Alentejo Abraça Setúbal”. Temos o Grupo Coral “Os Amigos do Independente”, Grupo Coral ”Os Amigos dos Sadinos “, Grupo Coral Sénior da Junta de Freguesia de S. Sebastião.
Eu adoro o Cante Alentejano. De cantar e de ouvir.
A enorme intensidade interpretativa é particularmente impressionante.
Fico sempre emocionado.
Afigura-se-me da mais elementar justiça salientar o trabalho altamente meritório que “Os Bandidos do Cante” estão a realizar na divulgação do Cante Alentejano.
Muito bem, Compadres! Na Eurovisão, vamos a eles! Levem Portugal e o Alentejo nas vozes e nos corações.
O Cante transporta-nos, de uma forma etérea, por essas paisagens de inultrapassável beleza e harmonia que o Alentejo possui e nos proporciona.
Gente de Alma e Corações Enormes.
Quanto a mim, as origens alentejanas serão sempre motivo de orgulho.