A reorganização das urgências obstétricas na região de Lisboa e Vale do Tejo voltou a colocar a Península de Setúbal no centro de uma decisão difícil: o encerramento da urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro. Não se trata apenas de uma alteração administrativa. Trata-se de redefinir onde e como nascem milhares de crianças na nossa região.
Quando falamos de saúde materna, falamos de tempo, de proximidade e de confiança. A gravidez não é uma patologia previsível; é um processo que pode exigir resposta imediata. Aumentar distâncias físicas significa, inevitavelmente, aumentar exposição ao risco. Numa área geográfica marcada por assimetrias sociais relevantes e por carências persistentes nos cuidados de saúde primários, a retirada de uma resposta hospitalar diferenciada não é neutra.
O Hospital do Barreiro não é uma unidade periférica sem histórico. Ao longo da última década assegurou milhares de partos e demonstrou capacidade técnica e operacional, mesmo em contextos de constrangimento. É um serviço com equipas experientes, integrado na comunidade e com função formativa relevante. Descontinuar esta resposta não elimina necessidades, apenas as desloca.
A transferência da atividade para o Hospital Garcia de Orta concentrará ainda mais pressão numa unidade já responsável por situações obstétricas de maior complexidade. A concentração pode ter racionalidade teórica, mas a realidade assistencial é feita de imprevisibilidade clínica, de picos de procura e de recursos humanos escassos. Em obstetrícia, cada minuto conta, e cada decisão estrutural deve ser ponderada à luz dessa evidência.
Importa ainda enquadrar esta decisão no momento que a Península de Setúbal atravessa. A região está projetada para crescer, captar investimento e atrair população. Planeamento estratégico em saúde significa antecipar essa dinâmica, reforçando capacidade instalada e garantindo que o desenvolvimento territorial é acompanhado por serviços públicos robustos.
Não está em causa resistência à mudança. Está em causa o critério da mudança. Reorganizar pode ser necessário; fragilizar respostas essenciais não pode ser o caminho.
Enquanto deputada eleita pelo círculo de Setúbal, entendo que a minha responsabilidade é dar voz às preocupações legítimas das populações e garantir que as decisões nacionais consideram a realidade concreta do território. A coesão territorial constrói-se com políticas que aproximam direitos, não com opções que afastam cuidados de quem deles depende.