Eugénio Fonseca (1957-2026): “Esta solidariedade que trago, foi de vós que a recebi”

Eugénio Fonseca (1957-2026): “Esta solidariedade que trago, foi de vós que a recebi”

Eugénio Fonseca (1957-2026): “Esta solidariedade que trago, foi de vós que a recebi”

12 Agosto 2026, Quarta-feira
Diretor do Jornal O Setubalense

Nasceu em Setúbal, no Bairro Santos Nicolau, numa família ligada ao mar. Dedicou toda a vida a Setúbal e gostava de estar “com todos”

“Esta solidariedade que trago, foi de vós que a recebi”. Há frases que, ditas no momento certo, acabam por revelar uma vida inteira. Eugénio da Fonseca encontrou uma dessas frases na de 22 de janeiro de 2020, em que olhou para as pessoas que tinha diante de si, no lançamento do livro em que conta a sua vida partilhada com D. Manuel Martins. Depois de adaptar um verso de uma canção de Mariza, disse: “Oh, gente da minha terra, agora é que eu percebi, esta solidariedade que trago, foi de vós que a recebi.”

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É difícil encontrar melhor maneira de explicar Eugénio da Fonseca. Porque naquela frase estão a terra, as pessoas e a ideia de comunidade que atravessaram a vida daquele que se considerou um filho espiritual do primeiro Bispo de Setúbal. Mas está também uma característica profundamente sua: a capacidade de reconhecer nos outros a origem daquilo que ele próprio deu aos outros.

Eugénio foi, durante décadas, uma das vozes mais persistentes de Setúbal na defesa da dignidade humana. Na Cáritas Diocesana de Setúbal, que dirigiu durante tantos anos, fez da solidariedade muito mais do que uma palavra. Foi uma prática, uma responsabilidade e uma forma de estar. Mas nunca pareceu olhar para essa missão como quem se coloca acima dos outros. Talvez por isso aquela frase seja tão bonita: a solidariedade que levava consigo, dizia ele, tinha sido recebida da sua gente.

Essa gente era Setúbal. Eram as pessoas que conheceu, as famílias que acompanhou, os que tinham menos voz, os que encontravam nas instituições uma possibilidade de esperança. Eram também os amigos, os companheiros de caminhada, os muitos que, ao longo dos anos, partilharam com ele causas, inquietações e projetos.

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Mas Eugénio da Fonseca não se esgotava na Cáritas. Era um homem de intervenção cívica, profundamente ligado à sua terra e atento aos seus problemas. Escreveu, falou, questionou e participou. Fê-lo sobre a pobreza e a exclusão, sobre a saúde e o Hospital de São Bernardo, sobre o desenvolvimento da região, sobre a Igreja, sobre o Vitória Futebol Clube e sobre tantas outras questões que entendia serem importantes para a comunidade.

E fazia-o com uma característica que hoje merece ser especialmente lembrada: abraçava todos. Não porque não tivesse opiniões — tinha-as, e fortes — mas porque entendia que a construção de uma comunidade exigia diálogo, proximidade e capacidade de estar com pessoas diferentes. Num dos seus textos, explicou que nunca revelou as suas opções político-partidárias porque estas dependiam dos projetos e das causas que entendia poderem favorecer o bem comum. A sua “praia”, escreveu, era estar “com todos”, sobretudo com aqueles que viviam nas “periferias existenciais e geográficas”.

Talvez esteja aí uma das maiores heranças que nos deixa.

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Eugénio era um homem de Igreja, mas não um homem fechado dentro da Igreja. Era um dirigente associativo, mas nunca se limitou aos cargos que ocupou. Era um vitoriano, mas via o Vitória como uma pertença coletiva, inseparável da cidade e dos seus habitantes. Era uma voz crítica, mas não confundia crítica com hostilidade. Era, acima de tudo, um cidadão.

Também por isso a sua relação com O SETUBALENSE merece ser lembrada. Eugénio não foi apenas uma personalidade sobre quem o jornal escreveu. Foi também um cidadão que escolheu estas páginas para pensar Setúbal, para interpelar os seus responsáveis, para defender causas e para partilhar memórias. Nos seus artigos encontramos muitas das suas preocupações, mas encontramos também o homem: atento, inquieto, solidário e profundamente ligado à terra que escolheu como sua.

E talvez seja essa a melhor forma de nos despedirmos dele. Não através de uma lista de cargos, distinções e responsabilidades — embora sejam muitas e importantes —, mas recordando a forma como ele próprio compreendia a sua relação com os outros. Eugénio recebeu muito da sua terra. E a sua terra recebeu muito dele.

Setúbal fica, por isso, mais pobre com a sua partida. Mas também fica com uma herança que não se mede pelos cargos que ocupou nem pelas distinções que recebeu: a memória de um homem que acreditou que ninguém deve ser deixado para trás e que uma comunidade só é verdadeiramente comunidade quando consegue abraçar todos.

É essa memória que queremos guardar.

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