É possível travar o Chega?

É possível travar o Chega?

É possível travar o Chega?

27 Março 2026, Sexta-feira
Jurista, docente universitário, deputado municipal

O que é que se pode fazer para evitar que o Chega vença eleições e seja Governo? Esta é uma pergunta clássica, que anima o debate político nos últimos anos, e que se repete noutras latitudes, com outros nomes (p. ex., em França perguntar-se-á como travar o Rassemblement National, em Espanha o Vox, e na Alemanha a AfD).

Para responder, como dizem os juristas, a doutrina diverge. Segundo algumas opiniões, os “partidos tradicionais” devem procurar “ocupar” os temas do Chega, como sejam a imigração, a segurança/criminalidade, a corrupção e uma doutrina conservadora no que alguns designam por “ideologia de género”. Esta será a visão do PSD e do CDS atualmente, como demonstra a prioridade que deram a reformas nas leis migratórias, ou às alterações à Lei da identidade de género que recentemente fizeram aprovar. Mas também poderá ser de algumas pessoas no PS, como o Presidente da Câmara de Loures, Ricardo Leão – que se envolveu numa polémica com o seu próprio partido, mas conseguiu uma vitória eleitoral expressiva.

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Diferentemente, outros fazem valer que é preciso resolver os problemas mais sérios das pessoas – como seria o caso dos baixos salários, da dificuldade de acesso à habitação ou da saúde, em Portugal, áreas aliás, onde estamos longe de ver sinais positivos.

Depois, temos os mais estratégicos, que entendem com a questão passa pela relação a ter com o Chega: trazendo-o para entendimentos de poder (como defende, p. ex., Pedro Passos Coelho) ou reforçando a “cerca sanitária” (o “não é não” de Luís Montenegro em 2024, há muito transformado num sonoro “nim”).

Finalmente, à esquerda, há ainda os mais ideológicos, que denunciam a incapacidade das forças tradicionais desta área, falarem para as classes trabalhadoras, nos últimos anos, deixando o espaço aberto para os partidos ditos populistas. Na Europa, o consenso neoliberal assumido pelos partidos de centro-esquerda, pelo menos desde o New Labour de Blair, torna esta tese plausível. Mas faltam evidências práticas: p. ex., a esquerda ganhou as legislativas em França mas não governou, o que teria sido uma boa oportunidade para “testar” esta tese.

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Na minha opinião, a resposta é, porém, mais simples: não há nada a fazer. Não há nenhuma “bala de prata”, nem sequer nenhuma estratégia laboriosa, que possa resultar. Com os dados atuais, e considerando o crescimento eleitoral explosivo, que teve desde 2019, só me parece haver uma conclusão óbvia: a breve trecho o Chega vencerá eleições e chegará ao Governo. Pode ser só em 2029 ou em legislativas antecipadas, mas tenho este cenário como inevitável. Como inevitável me parece ter partidos congéneres a governar os destinos da França, da Inglaterra, da Espanha, da Alemanha ou de muitos outros países.

Há cinco ou seis anos, talvez o curso das coisas pudesse ser diferente. Mas desperdiçámos essa oportunidade. Digo “desperdiçámos” porque não acho que haja aqui culpa exclusiva de algumas pessoas, ou sequer de alguns partidos ou atores políticos. Há um somatório de factos e de práticas, muitos deles de responsabilidade difusa: um governo maioritário “interrompido” sem ter tempo para fazer reformas decisivas; um protagonismo mediático excessivo do Chega (que continua e há de continuar a aparecer nas televisões todos os dias, e a ter o monopólio das redes sociais); um conjunto de “vícios” acumulados nos principais partidos, a começar pela enorme dificuldade de renovação e a crença de que o poder acabaria por lhes “cair no colo” quando o adversário direto entrasse em desgaste. Em Portugal, estas são algumas das razões que explicam o atual estado de coisas.

Mas também há méritos evidentes do Chega, de que é exemplo a sua estratégia da comunicação certeira: depois de 50 anos dos mesmos partidos, como dissuadir uma pessoa frustrada com as dificuldades da sua vida de que não vale a pena experimentar diferente? A mensagem é irrefutável.

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E agora? Agora, resta preparar-nos o melhor possível para conviver com estas forças no poder. O que equivale a robustecer os mecanismos democráticos de controlo – como o Tribunal Constitucional, a independência do poder judicial e da comunicação social ou o Presidente da República.

Já aos partidos, como o PS e o PSD, cumpre fazer um caminho sério e de credibilização – nos palcos a que tiverem acesso – que as pessoas possam reconhecer quando a “onda” das forças populistas começar a passar e quiserem procurar alternativas. Não é muito. Mas é o que temos.

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