Cidades com pressa, pessoas sem tempo

Cidades com pressa, pessoas sem tempo

Cidades com pressa, pessoas sem tempo

21 Janeiro 2026, Quarta-feira
Militante da Justiça e Direitos Humanos

 As cidades são máquinas onde as pessoas correm para consumir e competir, esquecendo do mais importante: viverem e serem felizes!

Vivemos num voraz motor da emoção, onde tudo é urgente, intenso e exige reação imediata. O contexto serve de justificação e a pressa torna-se geradora de ilusão — a ilusão de proximidade, de presença, de vida plena. Muitas vezes, porém, vive-se apenas em modo de sobrevivência.

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As pessoas encontram-se presas a rotinas mecânicas, a dias que parecem cópias uns dos outros. Repetem-se gestos, horários, discursos e até emoções, sem tempo para questionar se ainda fazem sentido. A pressa tornou-se hábito; a vida transformou-se numa corrida constante.

Apesar do automatismo das cidades, existe em cada pessoa algo vivo e sensível, que não se deixa reduzir a algoritmos ou à lógica da produtividade. Somos corpo, emoção, relação e pensamento. Essa dimensão orgânica lembra que o ser humano não foi feito apenas para cumprir tarefas, mas para amar, criar, cuidar, sentir e partilhar.

Num mundo que valoriza a eficiência acima da consciência, resistir torna-se quase um ato revolucionário. Resistir é recusar o piloto automático, é não aceitar que a vida se resuma a metas, objetivos e respostas rápidas. Resistir é escolher pensar, questionar e humanizar o quotidiano.

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As cidades estão cheias, mas as pessoas sentem-se vazias. Rodeadas de gente, muitas vivem isoladas, invisíveis, sem laços profundos. A solidão urbana é silenciosa e normalizada. Aprende-se a sobreviver nela, mas raramente a enfrentar o vazio, porque falta tempo — e, muitas vezes, coragem — para criar verdadeiros encontros, por vezes nem sequer com os vizinhos do próprio prédio, onde vivemos.

As pessoas insultam-se com facilidade, atacam-se por quase nada, competem por tudo. A palavra perdeu cuidado, o gesto perdeu empatia. O outro deixou de ser pessoa para passar a ser obstáculo, concorrente ou ameaça. A pressa não só acelera os passos, como endurece os corações.

Luta-se para chegar ao topo como se o topo fosse salvação. Empurra-se, humilha-se, passa-se por cima de valores e de pessoas em nome de uma ideia de sucesso que raramente é questionada. Mas, quando se chega lá, encontra-se silêncio, solidão e vazio. O topo promete tudo, mas entrega pouco — e quase nunca entrega felicidade.

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Em vez de cooperação, instala-se a desconfiança. Em vez de diálogo, o insulto fácil. Em vez de comunidade, o isolamento. As relações tornam-se utilitárias: servem enquanto ajudam a subir, descartam-se quando deixam de ser úteis. E assim se vai perdendo aquilo que verdadeiramente sustenta uma vida com sentido.

Vivemos rodeados de retórica vazia, de discursos que prometem mundos, mas não transformam vidas. A economia plástica molda as pessoas como produtos, transformando desejos em consumo e relações em transações. A ganância tóxica e fria guia decisões e comportamentos, ignorando a empatia e a dignidade humana. As consequências são pesadas: solidão, sofrimento, indiferença, vidas partidas por escolhas que nunca deveriam ter sido tomadas. Tudo isto acontece enquanto se corre, apressadamente, sem tempo para perceber o estrago que se cria.

Há uma violência invisível neste modo de viver. Não é apenas física ou verbal; é emocional e moral. É a normalização da agressividade, da indiferença e da falta de cuidado. Pessoas feridas acabam por ferir outras pessoas, num ciclo que se repete e se agrava. E tudo acontece em nome de uma pressa que não conduz a lugar nenhum.

Quando não há tempo para o outro, também deixa de haver tempo para si próprio. A pressa das cidades gera cansaço, ansiedade e indiferença. Alimenta uma solidão silenciosa que não se resolve com mais velocidade, mas com mais humanidade.

Talvez seja necessário reaprender a parar. A ouvir sem pressa. A caminhar sem destino. A sentar-se num banco de jardim, a visitar uma biblioteca pública sem olhar para o relógio. A recuperar o valor do encontro, da conversa demorada e do silêncio partilhado.

As cidades não vão abrandar por si mesmas. Mas as pessoas podem. E talvez o verdadeiro gesto de resistência, hoje, seja esse: abrandar para voltar a ser pessoa.

Nota – Este artigo surgiu numa das minhas meditações e reflexões, ao ouvir a música “Cidade” de Teresa Salgueiro.

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