“Cada idoso é uma biblioteca ambulante e viva; há um universo de histórias, saberes e vivências que, muitas vezes, passam despercebidas. O nosso dever é abrir as páginas da sua história.
Durante muito tempo, como voluntário, visitava hospitais e lares de idosos, e cada encontro que tinha com aquelas pessoas, muitos deles revelavam ser autênticas bibliotecas ambulantes, tesouros esquecidos.
Lembro-me do Sr. Joaquim na Santa Casa da Misericórdia, que com o seu olhar cansado marcado por uma vida dura, esperava um telefonema que nunca chegou. A minha vizinha, da janela em frente, vive na solidão, sofrendo pela morte do filho, e é nesse breve contato com quem passa que ela mantém uma ligação com o mundo. Ou então uma senhora da Universidade da Terceira Idade, com tanto saber, também se via abandonada e chorava em silêncio, tantas vezes com saudades dos filhos. E o caso mais chocante foi o de um idoso que faleceu no hospital psiquiátrico, quando ligámos para informar a família, responderam-nos incrédulos: “Mas ele ainda estava vivo?”.
A mudança começa com pequenos gestos. Um telefonema de um familiar, uma visita, um momento de atenção. São esses gestos simples que fazem toda a diferença.
E a política? A classe política tem o dever de proteger os mais fracos, de criar políticas que acompanhem o envelhecimento. Em Portugal, com a esperança média de vida a crescer, esta responsabilidade é mais urgente do que nunca.
É crucial lembrarmos o valor dos mais velhos na nossa sociedade. Eles não são apenas um símbolo do passado; são fontes de experiência, de sabedoria e de valores que merecem ser partilhados. Precisamos de estratégias concretas: por exemplo, clubes de leitura inter-geracionais, oficinas de partilha de memórias, visitas regulares a lares, onde as crianças aprendem com os idosos. São essas conexões que combatem a solidão, trazendo sentido à vida daqueles que tanto nos deram.
Eu costumo dizer aos meus amigos: quem trata mal uma criança ou um idoso, não pode ser uma boa pessoa. São as pessoas mais frágeis e a forma como as tratamos, que revela quem realmente somos.
Por isso, é urgente criar pontes entre gerações, para que cada jovem aprenda com o idoso, cada criança absorva essa sabedoria. Só assim, o nosso envelhecer será digno, e a nossa sociedade será mais humana.