Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

, Professor
4 Março 2026, Quarta-feira
Professor

Duas das críticas mais contundentes a “Serra-Mãe” apareceriam em Maio de 1946: uma, assinada por Jorge de Sena (1919-1978); outra, por João Gaspar Simões (1903-1987).


No jornal “Mundo Literário”, de 18 de Maio, Sena intitula o seu longo artigo como “Alguma Poesia e outras considerações desagradáveis”, nele abordando, entre outros, o livro “Serra-Mãe”, de Sebastião da Gama, parte que se inicia em tom acutilante sobre os novos poetas portugueses — “Há, nitidamente, na mais jovem poesia portuguesa, um retrocesso. Tenho observado, com mágoa, a infinita suficiência destes livros. Quer formal, quer intimamente, estamos na época da ‘Maria-vai-com-as-outras’. E tudo serve: as descobertas ou hábitos formais dos outros, o grande destino do homem (que merecia mais meditação e menos declamação), até a própria habilidade rítmica. Tudo serve, desde que seja possível o indivíduo convencer-se, e aos seus pares, de que é poeta.” O comentário prossegue, em tom mais ou menos metafórico, para criticar a busca das influências nos novos autores, algo que Sena qualifica como uma “miopia extrema”, percebendo-se que as considerações são também para os críticos, sobre quem escreve: “Nunca se publicaram tantas críticas, e nunca, suponho eu, se leram tantos metros de prosa, impressionista, didáctica ou erudita, falando de tudo, menos da essência da obra criticada.” Talvez estas palavras se dirigissem aos que já tinham escrito sobre “Serra-Mãe”, porque, para Sena, louvar este livro apresentava-se como uma fragilidade: “Aplaudir, hoje, o Sebastião da Gama de ‘Serra-Mãe’, sem denunciar que quase sempre repete outros maiores (repetir é diferente de encorporar na própria expressão); aplaudi-lo como, há anos, se aplaudiu um Marques Matias — e deixar rodeado de silêncio um José Régio, que terá muitos defeitos menos o de repetir Sebastião da Gama… — é enganar o poeta de ‘Serra-Mãe’.”

- PUB -


Embora Sena enalteça poemas como “Céu”, “Nós”, a primeira metade de “Cortina”, “Elegia desta Manhã” e “Poesia”, o tom das suas observações afigura-se exagerado nos comentários ao uso da sinestesia ou de outras construções e à aproximação à poesia mística: “Observo-lhe que, para ser na Arrábida um poeta místico, não é necessário um misticismo topográfico-literário, que eleva ou abaixa Fr. Agostinho da Cruz à categoria de ‘genius loci’. Que para falar de amor ou dulcificar a voz, não é preciso escrever com ‘soluços do sol’, ‘beijos na alma’, ‘carícias azuis’, ‘luz de seda’, etc.”


Uma dúzia de anos depois, em 1958, ao publicar a terceira série da antologia “Líricas Portuguesas”, por si organizada e anotada, Jorge de Sena incluía nove poemas de Sebastião da Gama e comentava que “a personalidade de Sebastião da Gama, o seu nobre carácter, a sua simplicidade pessoal, a frescura do seu juvenil e fraterno amor da vida, o seu destino cruel e malogrado, têm complicado muito — com o comovido culto que suscitaram — uma justa apreciação de uma produção poética vasta e irregular como a sua.” Relativamente à evolução dessa obra, acrescentava emergir “pouco a pouco, (…) apesar da tendência do poeta para ver-se como um ser infantil, ignorante, aberto sem discernimento a todas as solicitações da sentimentalidade, uma voz lírica de excepcional frescura, capaz de uma singela concentração expressiva, capaz também de uma fina transcendência do convencionalismo burguês, e fundamente sensível às coisas naturais e ao ar livre”.


A apreciação de João Gaspar Simões apareceu no jornal “Sol”, em 25 de Maio, também ela eivada de considerações sobre o que a crítica dizia a propósito de “Serra-Mãe”. Simões, recorde-se, tinha sido um primeiro leitor de “Serra-Mãe”, a quem o jovem azeitonense entregou os textos para apreciação quanto a publicação pela casa Portugália e, se ignoramos qual foi o comentário exarado, sabemos que a editora não assumiu a publicação. As considerações de Gaspar Simões não terão andado longe do que ficou registado nas páginas de “Sol”, onde, depois de elogiar o poema de abertura, “Harpa”, considera que, em vários poemas do volume, “a expressão não passa de um penoso exercício literário, onde o mau gosto se espoja correndo parelhas com o pior verbalismo”; que, quanto à religiosidade, “uma das coisas que mais concorre para esfriar qualquer entusiasmo pela poesia de ‘Serra-Mãe’ é o despropósito com que se lançam súplicas místicas e se fazem protestos de humildade e devoção numa linguagem alheia a qualquer mero sentimento religioso”; que as marcas de Pascoaes, Régio e Sá-Carneiro são “falsas inspirações na sua adequação ao estro exuberantemente verbal que nos parece ser o de Sebastião da Gama.” E termina, entre a decepção e o que se diz sobre o livro: “O certo é que de um verdadeiro poeta ou não, o livro ‘Serra-Mãe’ é livro que não passa despercebido no nosso movimento literário.”

- PUB -


Estes dois comentários não passaram ao lado para Sebastião da Gama, que, se não deu resposta pública, enviou ao seu amigo David Mourão-Ferreira um poema datado de 26 de Maio de 1946 (o dia seguinte à apreciação de Simões e pouco mais de uma semana depois das palavras de Sena), intitulado “Versos fora dos eixos”: “Estou-me matando prós críticos. / Hei-de cantar o que muito bem me apeteça, / hei-de sentir, hei-de pensar, hei-de berrar o que muito bem me apeteça. / Um grande raio que os parta mais às suas sentenças. // Se me der na maluca desato para aí a dizer palavrões / ou a escrever sonetos de Camões / começados do fim prò princípio / e com os acentos todos trocados. / Ou então (e que têm eles com isso?) não faço nada / senão olhar os Astros, de cócoras, / e fazer certa coisa para eles todos. // (…) // Deixem-me cá sossegado a fazer versos / marrecos ou escorreitos ou anémicos ou cheios de sangue na guelra / mas de toda a maneira versos / — uma coisa melhor que todas as suas pretensões, / todas as suas ciências, todas as suas opiniões, / e que mais belo do que eles só uma flor encarnada a nascer em cima de um telhado / sem se importar de saber se olham pra ela ou não…”

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

, Ex-bancário, Corroios
03/03/2026
- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não