As críticas ao livro “Serra-Mãe”, desde a sua publicação, em meados de Dezembro de 1945, até outubro do ano seguinte, de uma maneira geral, enalteceram o aparecimento da obra e do novo poeta, ao mesmo tempo que recomendaram a construção de um caminho mais pessoal, a necessidade de as influências literárias não se sentirem como imitação e a busca de uma linguagem mais elaborada; simultaneamente, desafiavam o jovem Sebastião da Gama a dar continuidade ao percurso encetado e mostravam-se esperançosas no crescimento do poeta.
As influências mencionadas apontam para nomes como Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), António Nobre (1867-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), José Régio (1901-1969) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952), alguns deles citados diversas vezes nas obras de Sebastião da Gama. Entre os 62 poemas que constituem o livro “Serra-Mãe”, os críticos dessa época assinalaram 36 como sendo das suas preferências, num registo de escolhas em que há repetições e, em vários casos, apenas uma menção — os poemas mais citados são “Rebentação” (por Lindley Cintra, João Pedro de Andrade, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas, David Mourão-Ferreira e Armando Ventura Ferreira), “Serra-Mãe” (por António Quadros, A. Pinto de Carvalho, João Pedro de Andrade, Maria de Lourdes Belchior, Vitorino Nemésio, João Ameal e A. Russinho) e “Vida” (por Manuel Antunes, José Noronha Gamito, Maria de Lourdes Belchior, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas e Armando Ventura Ferreira). Os outros poemas valorizados nas críticas são, por ordem alfabética: “A corda tensa”, “A meus irmãos”, “Aceitação”, “Alegria”, “Canção”, “Céu”, “Claridade”, “Cortina”, “Diário de bordo”, “Do meu Amor”, “Elegia breve”, “Elegia desta manhã”, “Em que se fala do Menino Jesus”, “Eternidade”, “Harpa”, “Itinerário”, “Minuto”, “Nevoeiro”, “Nós”, “Oração da tarde”, “Oração de todas as horas”, “Para que tu não chores”, “Pequeno poema”, “Poema da minha esperança”, “Poesia”, “Presença”, “Remoinho”, “Ressurreição”, “Romântico”, “Teimosia”, “Versos para eu dizer de joelhos”, “Versos quase tristes” e “Vontade”.
Pela voz de todos os críticos deste primeiro momento de recepção da obra “Serra-Mãe” passa a ligação à Arrábida como tema predominante, uma forma de olhar o outro, o mundo ou a vida personificados na serra, uma referência que, como já visto, foi crucial para Sebastião da Gama, não só como motivo literário, mas também como motivação local, como fascínio, como espaço de vida.
A produção literária do jovem poeta prosseguiu, em 1947, com a publicação de “Cabo da Boa Esperança”, o que iniciou um novo ciclo de recepção da sua obra. Contudo, “Serra-Mãe” viria, ao longo dos tempos, a ser tema de abordagem, na imprensa ou em livro, pelo olhar crítico de muitos nomes, de que se destacam Alexandre Ferreira dos Santos, Alexandre Ogino Sartório (que lhe dedicou uma tese de mestrado em 2021, “Linda longa melodia imensa: Poesia e Mística em ‘Serra-Mãe’, de Sebastião da Gama”, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), António Manuel Couto Viana (1923-2010), António Cândido Franco, António José Borges, António Mateus Vilhena, Artur Portela (1901-1959), Daniel Pires, Fernando Eloy do Amaral (1922-2008), Guilherme d’Oliveira Martins, João Maia (1923-1999), José do Carmo Francisco, Luciano Pereira, M. Gonçalves Martins, Manuel de Campos Pereira (1906-1981), padre Manuel Marques (1921-2007), Ruy Ventura, Virgínia Motta (1909-??) e Viriato Soromenho-Marques.
Apesar de o ano de 1947 ter tido um novo impulso na obra de Sebastião da Gama com um novo título, a verdade é que esse foi também o ano em que o jovem poeta de Azeitão interveio civicamente em favor da Arrábida, alertando vários jornais e personalidades para a iniciada destruição da Mata do Solitário. É conhecido o teor da carta enviada de Azeitão em 23 de Agosto desse ano, dirigida ao engenheiro Miguel Neves: “Socorro! Socorro! Socorro! O José Júlio da Costa começou (e vai já adiantada) a destruição de metade da Mata do Solitário que lhe pertence. Peço-lhe que trate imediatamente. Se for necessário, restaure-se a pena de morte. Socorro!” O tom da carta era exagerado, obviamente, mas intencional — urgia defender a Serra. Chegada a missiva ao conhecimento de Carlos Baeta Neves (1916-1992), ela foi o início de um processo que levou à criação da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) em 1948, organização que viria a ter influência na preservação da Serra e, mais tarde, na constituição do respectivo Parque Natural. A Arrábida continuaria a ser tema de apresentação e de convite à descoberta no opúsculo “A Região dos Três Castelos”, editado em 1949, concebido para a empresa Transportadora Setubalense.
Quanto à obra literária de Sebastião da Gama, “Serra-Mãe” foi, na verdade, o início de um ciclo — Alexandre Ferreira dos Santos defendeu, em “Sebastião da Gama: Milagre de Vida em Busca do Eterno” (2008), a existência de uma trilogia evolutiva na obra ântuma do poeta, iniciada com “Serra-Mãe”, constituído por poemas produzidos até 1945, correspondentes a uma época de “adolescência poética”; uma segunda fase, “contra o derrotismo e o triste fado lusitano”, com os poemas produzidos entre 1945 e 1947, que alimentaram “Cabo da Boa Esperança” (1947); finalmente, a terceira fase, de “maturidade poética”, com textos escritos entre 1948 e 1951, que compõem “Campo Aberto” (1951). Esta explicação faz sentido e vai ao encontro da opinião que defende serem os poemas mais tardios os melhores de Sebastião da Gama. No entanto, para o poeta, “Serra-Mãe” foi, apesar de todas as considerações críticas, a obra que mais peso terá tido no seu trajecto. Livro organizado e composto durante o período em que estudava em Lisboa, quando concluiu a licenciatura (1947, tempo em que já preparava o segundo livro), escreveu à amiga Maria dos Remédios Castelo-Branco (1929-2024), que o tinha felicitado por já ser “Poeta, Prosador e… Doutor”, afirmando: “Doutor. É cómico, sabes? O que me interessa na vida, o que, a meus olhos, me dá importância social e individual, aquilo, ainda, por que tudo sacrificaria — é isto de ser Poeta. A minha verdadeira licenciatura foi a ‘Serra-Mãe’. (…) E vou agora de cabeça erguida para o ‘Cabo da Boa Esperança’.” O primeiro livro era, assim, a carta de apresentação que obrigava a prosseguir o trajecto, tal como a obtenção da licenciatura se lhe afigurava como um instrumento para fazer o caminho…