19 Junho 2024, Quarta-feira

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500 Palavras: Olhar a Galiza com Ramón Villares

500 Palavras: Olhar a Galiza com Ramón Villares

500 Palavras: Olhar a Galiza com Ramón Villares

O título, foi Ramón Villares (n. 1951) buscá-lo ao verso de Teixeira de Pascoaes que abre o livro “Marânus” – “Galiza, terra irmã de Portugal” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022), ensaio sobre a identidade do noroeste espanhol e sobre as suas relações com Portugal, estendido por onze capítulos. O recurso à literatura portuguesa passará além do título, pois, em diversas ocasiões, são invocados autores lusos, tal tem sido a aproximação cultural, reconhecendo Villares que a obra foi redigida “em diálogo com a história portuguesa e com as suas principais linhas de força”.
O propósito da monografia torna-se claro logo desde a introdução – “explicar aos leitores portugueses que a Galiza não é portuguesa e que, inversamente, atravessar a fronteira para o Norte não significa entrar em Espanha, mas sim numa ‘terra irmã’ muito diferente de Castela”.
A designação “Galiza”, antiga no tempo, referia inicialmente o espaço ocupado pelos “habitantes das terras mais distantes do conjunto da Hispânia na época da conquista”. Apesar dos sucessivos movimentos históricos, a região é apresentada pelo autor como dotada de “uniformidade cultural” e de “marcada humanização da paisagem”, dando razão a Miguel de Unamuno (1864-1936), que a classificara como “natureza humanizada, feita mansão do homem” (em “Por tierras de Portugal y de España”). Factor importante para essa unidade tem sido a língua, o galego, durante muito tempo mantida pelo campesinato e considerada desde 1978 como uma das “demais línguas espanholas”, advinda do galaico-português, recordando Villares as razões da separação por um rio entre o galego e o português: “a língua falada e escrita a sul do Minho alcançou um grande desenvolvimento com o apoio institucional da corte de Lisboa, enquanto a língua a norte do Minho careceu de referências políticas e institucionais e começou a ser satelizada pela língua castelhana a partir do final do século XIV”. Outro factor de identidade apontado para a Galiza é o da cultura cristã, com particular enfoque em Compostela, pólo religioso intenso de construção consensual, constituindo um dos vértices da geografia espiritual europeia.
Questões determinantes para a Galiza de hoje foram, no século XX, a progressiva alteração de propriedade no mundo rural, a emigração para a América do Sul e a influência que os emigrantes tiveram na preservação da identidade e a afirmação cultural galega (através de nomes incontornáveis como Rosalía de Castro, Eduardo Pondal, Curros Enríquez, Alfonso Castelao ou Otero Pedrayo, ou por via de movimentos como as Irmandades da Fala, em 1916, a geração da revista “Nós”, em 1920 – título simbolicamente curioso e forte de afirmação identitária -, ou o Seminário de Estudos Galegos, de 1923).
O derradeiro capítulo, significativamente intitulado “Fronteira, irmandade e cooperação”, remete para as relações entre as margens norte e sul do rio Minho. Caberá aqui lembrar o monçanense João Verde (1866-1934), na oitava que abre o livro “Ares da Raia” (1902) – “Vendo-os assim tão pertinho, / A Galiza mail’o Minho, / São como dois namorados / Que o rio traz separados / Quasi desde o nascimento. / Deixá-los, pois, namorar, / Já que os pais para casar / Lhes não dão consentimento.” – versos que ecoaram Galiza fora, tendo Amador Saavedra (1864-1932) respondido: “Con ou sin consentimento / D’os pais o tempo há chegar / Em que teñam que pensar / Em facer o casamento”. As relações entre o Norte de Portugal e a Galiza, se bem que tendentes a esbaterem o distanciamento, denotam, segundo Villares, ainda os “muros simbólicos que não cairão, a menos que haja uma forte vontade política e cívica”, que pode ser um caminho de futuro.

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