1 Outubro 2022, Sábado
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500 Palavras: Pensar o coração para homenagear Saramago

Quando Francisco aparece, após longa ausência, ouve de Clara o desabafo marcado pelo afastamento: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu fizeram-no de carne, e sangra todo o dia.” O excerto é da peça “A segunda vida de Francisco de Assis” (1987), de José Saramago, e originou o tema da terceira edição do concurso literário que a Câmara Municipal de Palmela organizou – “De que é feito o teu coração?” -, associando-se ao centenário saramaguiano e publicando a antologia com o mesmo título, reunindo os textos premiados (três de cada escalão).

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No primeiro grupo (6 a 11 anos), as três histórias foram assinadas por Mariana Figueira Brinca (1º), Simão Rosa de Almeida (2º) e Matilde Alves (3º). O texto vencedor relata uma história cuja protagonista passa pela experiência do medo da doença e da paz resultante da recuperação, chegando à descoberta de que o amor começa nos mais próximos; em segundo lugar, surge uma história em que o coração dos outros é visto pelas atitudes, numa tentativa de olhar o outro, compreendendo o que o torna único; a terceira premiada faz passar a personagem por um percurso de simplicidade, pedagógico, para perceber algo tão complexo como saber de que são feitos os sentimentos.

No segundo escalão (12 a 17 anos), as assinaturas são de Tânia Parreira, Salomé Cruz e Marina Mendes. A primeira envereda por uma história de um amor que à partida parece impossível, mas que ajuda a mudar o mundo, cultivando ideias como a necessidade de se perceber a Natureza e acreditando na construção da utopia; a necessidade de o ser humano pensar, a importância do outro e a utopia como o mundo que se constrói são tópicos da narrativa do segundo texto, enquanto a descoberta de que não há seres perfeitos e a repugnância pela ambição desmedida são os ingredientes que dominam o terceiro classificado.

O último grupo (maiores de 18 anos) reúne os trabalhos de Carlos Vinhal Silva, José Carlos Almeida Lopes e João Alberto Roque. O narrador do primeiro texto, “Sou feito do que são feitos os livros que escrevi”, percorre os caminhos para apurar o sentido da existência, dando lugar ao sonho e ao desejo, num corajoso itinerário que busca construir o seu próprio coração (“agora sei do que sou feito; sou feito do que construí; agora sei de que é feito o meu coração: o meu coração é feito daquilo que há em mim”); a narrativa “Coração variegado”, que obteve o segundo lugar, leva a personagem a um passeio em que ressalta o papel da Natureza, num peregrinar pelas memórias de uma vida doce, agora sofrendo a ausência (“Não estás, mas sinto-te. Percebo agora a saudade. Ensinaste-me a entender de que é feito o meu coração!”); o terceiro texto tem título homónimo do tema do concurso, exercitando-se o narrador na procura da substância que forma o coração (partindo de expressões como “coração de manteiga”, “coração de ouro”, “coração de ferro” ou “coração de pedra”, variáveis de formas como os outros nos vêem), pretexto para abordar a pluralidade de sentimentos despertados e para reflectir sobre a complexidade de que o “eu” é feito.

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A diversidade a propósito da matéria que faz o coração encontra linhas comuns na descoberta do outro, na faceta do sentimento, no caminho de que a vida se faz, no álbum que fica daquilo que as vidas são. Como, em “O ano da morte de Ricardo Reis” (1984), escreveu Saramago, “muitas vezes começamos por falar de horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração.”

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