11 Agosto 2022, Quinta-feira
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Jorge Costa e a condição do “sem-abrigo”

“Imaginem o que é viver constantemente na rua, sem um sítio nosso para nos sentarmos a descansar um pouco, sem uma casa de banho para nos lavarmos e fazer as nossas necessidades mais básicas, e sem acesso pessoal a energia eléctrica, sem sítio para arrumar a roupa, guardar a comida, sem nada. Expostos a tudo e a todos, sem privacidade e com uma crescente falta de dignidade.”

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Este parágrafo desafiador inicia o relato que Jorge Costa (1967-2022) nos faz na obra “Diário de um sem-abrigo” (Oficina do Livro, 2022), com prefácios de Marcelo Rebelo de Sousa e de Nuno Markl, narrativa que retrata o quotidiano de um sem-abrigo, não seguindo o género diarístico, mas cultivando a crónica autobiográfica, em catorze textos (inicialmente publicados no jornal “Mensagem de Lisboa”) que peregrinam pelos dias e noites que o autor viveu nas ruas de Lisboa e pelos sentimentos que o dominaram, cada vez mais próximos daquilo que foi conhecer a ausência de dignidade.

 

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Jorge Costa, contabilista, que não foi sem-abrigo por não ter tentado outras oportunidades (operador de caixa numa gasolineira, operário na construção civil), despedido quando já passara os cinquenta anos, desamparado pelos amigos, rapidamente se confronta com uma dura aprendizagem  – “A sociedade em que estamos inseridos ajuda quem está a subir. Quem está a descer leva um ‘empurrão’ para descer ainda mais.”, sentenças que repetirá no livro por ter sido sentida na pele, num mundo dominado pelas “leis da rua”.

Toda a narrativa é dominada pela emoção, havendo momentos mais intensos – o encontro com a personagem Zé, outro sem-abrigo, que foi “padrinho” e conselheiro; a consciência dos subterfúgios para sobreviver, dramáticos, como o da prostituição nas casas de banho da gare do Oriente; a primeira ida ao contentor do lixo para procurar algo para comer; o assalto de que foi vítima, violento, e o desprezo sentido no mundo dos sem-abrigo; a necessidade de roubar comida nas lojas, contrariando os princípios e as convicções; a constatação de que a única coisa que une os sem-abrigo “é não terem casa para morar, vivendo de forma igual e sendo observados por uma sociedade que lhe coloca uma espécie de rótulo”.

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As crónicas deste “Diário de um sem-abrigo” não pintam as realidades com metáforas. Consegue o leitor sentir o desprezo visto nos olhares, a razão de ser da moeda que é dada, a crueza da linguagem, o abandono e a falta da capacidade de sonhar. O mundo que Jorge Costa frequentou durante oito meses, depois que deixou o seu quarto em Alverca por não ter dinheiro para pagar a mensalidade, ensinou-o a não chorar, a “não revelar aquilo que vai cá dentro”, gestos que só passou para a escrita quando, depois desse tempo, teve direito a uma casa através do projecto “Housing first”, que o mesmo foi ter encontrado um pouco do sonho que o animara no percurso – “só sonhava em viver dignamente.”

No final das catorze crónicas, Jorge Costa reconhece a crueldade da escrita – apesar do equilíbrio físico-emocional reconquistado, “foi duro, foi muito duro escrever estas crónicas”, refere na última, à maneira de balanço e de caução da sinceridade que pôs na escrita. E reconhece também que a sua identidade não podia deixar de fora o que passou nas ruas, tentando definir-se como “um sem-abrigo com casa”. E, da mesma forma que iniciou a série com um desafio ao leitor, conclui com outra provocação – “Um dia destes, dei por mim a pensar que se todos nós sentíssemos a miséria dentro de nós, talvez a miséria não existisse.”

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