1 Fevereiro 2023, Quarta-feira
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InícioOpiniãoSetúbal em entrevistas e representação “à flor das águas”

Setúbal em entrevistas e representação “à flor das águas”

Neste livro, há personagens que vão à procura de um espaço, categoria necessária para que a história exista. E assim se vai forjando a acção, que advém do caminhar pela cidade, da paragem em pontos mais ou menos estratégicos (ou simbólicos), encontro entre as pessoas e as memórias que têm para contar. É, assim, um livro de geografias, de gentes, de reconstruções a partir do passado e do vivido, teia assente sobre conversas e escritas, dando razão ao título do projecto, poeticamente chamado “Conversas Fiadeiras”.

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“À flor das águas – Diário de bordo” é esse livro, coordenado por Patrícia Pereira Paixão e Vanessa Iglésias Amorim, recentemente surgido (Teatro Estúdio Fontenova, 2022), estruturado em duas partes: a primeira, com o resultado dessas peregrinações por Setúbal (Praias do Sado, Casal das Figueiras, “Baixa” da cidade, Parque Urbano de Albarquel, Bela Vista e miradouro de S. Sebastião), encontros com data marcada e registada (realizados entre 5 de Março e 23 de Abril), participados por várias vozes e sentires, em jeito de reportagem do visto e do ouvido, reproduzindo discursos directos, descrições, lembranças e afectos; a segunda, construção ficcional e dramatúrgica, surgida como síntese do ouvido e do partilhado, recriação dos tempos e das personagens, evidência dos ritmos que marcaram vidas, questionamento das ligações que cada um faz à cidade, roteiro para representação que o Teatro Fontenova levou a cena na primeira quinzena de Maio (o livro é acompanhado por um cd com composições de João Mota, que constituíram suporte musical da representação).

 

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O título surge justificado por esse trabalho em progressão, contínuo, em forma de “diário de bordo”, testemunho da descoberta e da preparação, e por essa selecção operada pela memória ou pelo passar dos tempos que traz à superfície o que ficou do importante que a vida foi, camada fina e translúcida “à flor das águas”. O conjunto dos textos é uma boa motivação para um olhar sobre a cidade e o que a faz, sobre as nossas ligações a este espaço, aqui incluindo a geografia que vai até às periferias, sejam elas anteriores à cidade ou consequência do que a cidade se fez. No texto prefacial, as coordenadoras, recorrendo à sequência da linguagem náutica (“zarpar – navegar – acostar – ancorar – levantar ferro”) reconstroem metaforicamente o processo que originou este livro: “toda esta navegação tornou evidente que é necessário levantar ferro, ou seja, desancorar e voltar a zarpar para voltar a explorar estes e outros lugares”, explicação que volve desafio, pois “pensar a cidade requer mais caminhadas, mais conversas, mais observações, mais partilha de espaços, mais criação artística em espaço público, mais tempo e mais colectivo”.

As linhas entre as pessoas e os espaços cruzam-se com ideias como a identidade dos bairros (seu movimento associativo, suas fronteiras, ou os regressos que podem sugerir imagens da necessária maior proximidade entre as pessoas), a ligação da cidade ao Sado e a Tróia, a indefinição de um território que oscila entre a industrialização e o turismo (com os riscos do consumismo do “típico”), a necessidade de se pensar a cultura quando se pensam os espaços, o relacionamento entre as pessoas e o território (a vida na rua, os benefícios da vizinhança).

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Há um passo do texto dramático que resume todo o processo: “Decidimos ouvir pessoas de diferentes bairros, visitar diferentes espaços e experienciá-los no corpo. Cruzámos leituras e reflexões. Fizemos performances num largo da cidade e numa ribeira dentro de um parque natural. Cada uma experienciou estes espaços de forma diferente.” Boa conclusão, em que se nota a conjugação do afecto com a reflexão!

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