20 Maio 2022, Sexta-feira
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Sandro Cândido Marques e a origem da Amnistia Internacional

“Foi em 19 de novembro de 1960, enquanto lia no metropolitano o ‘Daily Telegraph’, que me deparei com um pequeno parágrafo que relatava como dois estudantes portugueses haviam sido condenados a penas de prisão por nenhum outro delito além de terem feito um brinde à liberdade num restaurante lisboeta.” Esta foi a motivação maior para que se iniciasse um movimento em prol da liberdade de consciência, como depôs Peter Benenson (1921-2005) para uma recolha de história oral em 1983.

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Depois da história da prisão dos jovens, a indignação de Benenson levou-o a publicar no jornal inglês “The Observer”, em 28 de Maio de 1961, o artigo “The forgotten prisioners”, insurgindo-se contra as perseguições devidas à opinião política ou religiosa e anunciando a edição de “Persecution 1961” (Penguin Books), que organizou e esteve na origem da criação da Amnistia Internacional, contendo nove narrativas sobre pessoas “que sofreram pelos seus ideais”, aí se incluindo um capítulo dedicado a Agostinho Neto (1922-1979), poeta e médico angolano preso pela PIDE – “em Junho do ano passado, a polícia política marchou até sua casa, chicoteou-o em frente da família e, depois, levou-o contra vontade” para Cabo Verde.

 

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Apesar dos esforços de vários investigadores ligados à Amnistia Internacional, não foi possível apurar a identificação dos jovens portugueses que Benenson referiu como inspiração, havendo ainda dúvidas quanto à data e quanto ao jornal em que a notícia teria sido lida, haja em vista que já eram passadas mais de duas décadas entre a leitura do acontecimento e a data do depoimento para a memória…

A história que se terá passado em Lisboa foi aproveitada pelo setubalense Sandro Cândido Marques para ser contada na obra “Estudantes” (ed. Autor, 2021), ilustrada por João Manoel Feliciano (n. 1978). Devido à falta de elementos históricos sobre o episódio de Lisboa, a narrativa, em texto exíguo com forte aposta no poder da imagem, traz as personagens João e Joana, estudantes, para o interior de um café, onde conversam sobre uma actividade para o fim de semana (que se percebe ter a sua dose de segredo) e decidem brindar à liberdade, mas… “erguem os copos, olhando-se mutuamente, e levam os copos à boca, não passaram do primeiro gole”. O brinde foi interrompido por dois homens armados, agentes da polícia, que agiram ao som da palavra “liberdade” e ditaram o destino dos jovens: a rua António Maria Cardoso, onde estava sediada a PIDE. Ao levantarem-se, João deixa cair um embrulho que continha o seu trabalho final de curso, não por acaso intitulado “Programa para a democratização da República”.

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A simplicidade da estrutura narrativa é explorada pela força do traço, em tinta da China, de Feliciano, que intensifica as reacções de indiferença, esperança, compromisso, preocupação, agressividade e surpresa das várias personagens (empregado de balcão, jovens, agentes policiais, clientes), exaltando a força da expressão da liberdade e a sua fragilidade.

A história de “Estudantes” serviu de base a uma representação de rua, em Berlim, em 2011, aquando do 50º aniversário da Amnistia Internacional, e, independentemente da falta de pormenores de Peter Benenson para se localizar esta história relativamente aos seus intervenientes, ela vale pelo que simboliza: a esperança que a liberdade contém e os riscos a que ela pode obrigar.

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