7 Julho 2022, Quinta-feira
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Rússia e Ucrânia: O paradoxo da tolerância

No fim da 2.ª Guerra Mundial, o filósofo Karl Popper publicou “The Open Society and its enemies” (A sociedade aberta e os seus inimigos). A obra interessa-nos, ora, sobretudo porque foi nela que o austro-britânico formulou a hipótese do paradoxo da tolerância, frequentemente invocada nos solavancos das divisões filosóficas e políticas.

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Numa formulação simplista, que é aquela que esta sede nos permite, o paradoxo da tolerância coloca, de certo modo, as seguintes duas perguntas, procurando, depois, compor respostas, ou aproximações de respostas: Deve o tolerante tolerar o intolerante? Se sim, até que ponto o deve fazer?

A questão é complexa, e vem enquadrada no âmbito da reflexão sobre a necessária conservação e defesa das sociedades abertas às ideias e aos ataques dos intolerantes. Ao problema, a resposta de Popper, numa palavra, é a de que “Devemo-nos, então, reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. Devemos exigir que qualquer movimento que pregue a intolerância fique à margem da lei”.

Popper não defende, contudo, a impossibilidade absoluta de diálogos com ideias ou práticas intolerantes; tudo parece depender de uma questão de grau da intolerância, ficando, quiçá, o problema da determinação do referido grau do lado do leitor.

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Relacionado com este aspecto, o relativismo é talvez um dos mais marcantes traços do novo milénio: das ciências sociais às ciências exactas, a sua abrangência é lata. É verdade que a teia da realidade é complexa, e que por vezes é necessário expandir a mente, os sentidos e o entendimento para compreendermos as nuances dos problemas.

E se deste modo se pode avançar, como é costume, que o mundo não é só a preto e branco e também tem zonas cinzentas, não é menos verdade – e cumpre relevar este facto as vezes que forem necessárias – que também nem só de zonas cinzentas é feito o mundo: o preto e o branco continuam a existir, e não devemos ter medo de o apontar, sempre que se impuser.

Há atitudes mais virtuosas que outras, há indivíduos que se comportam melhor do que outros, há nações com posturas mais e menos exemplares e há ideias que contribuem e não contribuem para o avanço da civilização e para o nosso próprio progresso.

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Se talvez seja ambiciosa a hipótese de traçar a fria cisão entre o Bem e o Mal, dizemos, sem hesitações, que um traço límpido da nossa humanidade é a coexistência da virtude e do vício, do melhor e do pior, bem como a profunda crença de que devemos procurar fazer com quem as dimensões positivas da nossa interioridade existam o mais tempo possível.

A invasão externa de um país soberano – sobretudo nas condições em que aconteceu – pressupõe a ultrapassagem da fronteira da possibilidade de tolerância. Em relação a este comportamento, qualquer tentativa para encontrar uma justificação que permita tolerar o intolerante é vã, e será facilmente desarmada por uma mente lúcida.

Como avançou Nietzsche, para sabermos respeitar é necessário sabermos desprezar e talvez em relação a alguns solavancos da vida seja mesmo necessário invocar o desprezo.

A invasão da Ucrânia pela Rússia – com o consequente sacrifício de vidas civis, a destruição de milhares de famílias e a obrigação de milhões de ucranianos abandonarem o seu território – é uma dessas situações.

Não há lugar para complacências, zonas cinzentas ou meias palavras. O comportamento dos decisores russos merece o nosso desprezo; a resistência nobre, corajosa e digna do povo ucraniano o mais profundo respeito.

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