7 Julho 2022, Quinta-feira
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InícioOpiniãoA Gripe Pneumónica de 1918/1919 (parte II)

A Gripe Pneumónica de 1918/1919 (parte II)

Na semana transacta, dei início a uma de um total de duas crónicas sobre a Gripe Pneumónica de 1918/1919, procurando estabelecer um paralelismo com a actual situação pandémica, decorrente do Covid-19.

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São estas similitudes que procuro também transmitir aos meus alunos na disciplina de Ciências Naturais, no meu Agrupamento de Escolas Lima de Freitas.

Há cem anos atrás, a pandemia contava com aliados poderosos: a 1ª Guerra Mundial, a insuficiência e a incapacidade dos serviços de saúde e de assistência médica, as deploráveis condições de higiene e salubridade em que vivia a maioria da população, a escassez crónica de bens alimentares e medicamentos, a pobreza ou o baixo nível cultural, económico e social da população portuguesa, tudo se conjugava para criar as condições favoráveis à progressão e disseminação da doença.

Como quase sempre acontece, a tragédia alimentou-se da miséria: a pneumónica penalizou sobretudo as classes sociais mais desfavorecidas. Os meus avós maternos, Júlia e Carlos, estremeciam sempre que evocavam aqueles tempos conturbados.

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Um pouco por todo o lado o espectáculo era desolador: a morte, corpos amontoados, miséria e sofrimento. Os hospitais improvisados, entre liceus e casas particulares, para além dos que existiam, não chegavam para tantas vítimas.

Não havia sequer capacidade para enterrar os corpos. Passado o período mais dramático, que ocorreu em Outubro, a epidemia foi-se desvanecendo ao longo do mês de Novembro de 1918. Por essa altura, os meios políticos e o País em geral, estavam suspensos do desfecho da Guerra e da situação política, económica e social nacional, potenciada pelo assassínio de Sidónio Pais.

Relativamente a Setúbal e segundo Alberto Pereira, esta foi a sétima localidade portuguesa mais afectada, o que levou à criação de uma Comissão de Assistência às Vítimas da Epidemia, que tratou pessoas, subsidiou a compra de alimentos, roupas, pagamento de rendas de casa e funerais.

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Os tratamentos médicos eram, na sua quase totalidade, de natureza paliativa. Por sua vez, o Administrador do Concelho, Cruz Sobral, proibiu que no percurso para o cemitério, os caixões das vítimas fossem abertos, bem como os toques dos sinos das igrejas durante os funerais, para não sobressaltar a população e evitar que o medo se instalasse na cidade.

Com efeito, só no mês de Outubro de 1918, foram registados 470 óbitos. Nesse período dramático destacou-se o papel do subdelegado de saúde, Dr. Fernando Garcia, pela acção desenvolvida em relação a medidas de higiene na cidade, tais como: desinfecção de urinóis e sargetas com calda bordalesa, obtenção de lençóis para o hospital, instalação de um hospital auxiliar no antigo Convento da Soledade (actual Casa da Baía), distribuição de sopa aos necessitados, reserva de leite para os doentes e angariação de fundos.

A falta de médicos era aflitiva. Naquela altura, Setúbal tinha apenas quatro médicos: Francisco Paula Borba, Manuel Vieira de Carvalho, Belarmino de Abreu e Sousa e Domingos Fernando Garcia, o que correspondia a um médico para cerca de 13 000 pessoas.

O Hospital da Misericórdia estava repleto de doentes, incluindo os corredores. Por fim, a situação normalizou-se. A Gripe Espanhola esteve na origem da criação do Orfanato Municipal, destinada a acolher jovens do sexo masculino, cujos pais tivessem falecido em consequência da pandemia e que veio a ser inaugurado a 18 de Maio de 1919, com mais de quarenta crianças.

Cem anos depois, embora com outros contornos, a história repete-se.

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