20 Maio 2022, Sexta-feira
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500 palavras: Hugo Van Der Ding: biografias a partir do fim

Eis um conjunto de quase centena e meia de vidas, invariavelmente iniciadas pelo falecimento dos biografados, ideia compreensível pois só no final do percurso se pode registar o contributo deixado para o mundo…

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São 141 figuras (70 mulheres e 71 homens) – e mais os Távora -, metade das quais falecidas no século XX, que Hugo Van Der Ding colige em “Vamos todos morrer” (Objectiva, 2021), título nada apocalíptico pois o subtítulo explica – “Biografias breves de gente que já lá está”.

A primeira apresentação destas narrativas aconteceu na Antena 3, ordenando-se a escolha pelo calendário (entre 3 de Abril e 30 de Março), em revisitação a figuras como Oscar Niemeyer (104 anos), Katherine Johnson e Rainha-Mãe (101 anos) ou Irmã Lúcia e Estée Lauder (97 anos), as mais longevas, e a outras como Severa (26 anos), Mário de Sá-Carneiro (25 anos) ou Joana d’Arc (19 anos), as que mais curta vida tiveram.

A viagem cronológica inicia com os que faleceram há mais tempo – Jesus, o Cristo (f. 33), Nero (f. 68) e Maomé (f. 632) – e finda com os que mais recentemente partiram – Duquesa de Alba e Maya Angelou (f. 2014), China Machado (2016) e Katherine Johnson (2020).

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Neste intervalo, há registos para todos os séculos a partir do XIII e ainda para os séculos I, VII e IX. Entre os biografados portugueses (38, sendo 21 homens e 17 mulheres), os mais antigos desaparecidos são Santo António (f. 1231), Rainha Santa Isabel (f. 1336) e D. Filipa de Lencastre (f. 1415) e os mais recentes, Sophia de Mello Breyner (f. 2004), Irmã Lúcia (f. 2005) e José Saramago (f. 2010).

O painel é tão diverso como as obras que levaram a que estas figuras ficassem conhecidas – boas ou más razões; acção no campo da política, da economia, da cultura, da sociedade; muito trabalho ou sorte; crime ou sofrimento; partilha ou amor.

Após a idade com que a personagem faleceu, fica o lamento “tão novo(a)” entre parênteses, paródia do hábito, aqui generalizada para um tempo de vida entre os 19 e os 104 anos…

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As crónicas assentam em relatos leves mas com informação densa, entremeados com tiradas de humor, muitas vezes surgidas dos jogos de palavras (sobre a indumentária de Isabel de Inglaterra, refere as “enormes golas, que dão também nome àqueles ‘abat-jours’ que os veterinários põem à volta da cabeça dos cães e dos gatos”), de referências à actualidade com recorte de ironia (“é verdade que Maria Antonieta vivia num luxo escandaloso acima das possibilidades da França, como diria o saudoso Passos Coelho”; São Francisco Xavier “estudou Filosofia, Literatura e Humanidades, e só não acabou a trabalhar num ‘call center’ porque, naturalmente, ainda não havia telefones”).

Por vezes, o jogo humorístico chega à recreação, registando de imediato o invento com a fórmula “brinco” – a propósito de Neil Armstrong, a pessoa que primeiro pisou a lua: “parece que nunca foi lá grande estudante, uma vez que andava sempre com a cabeça na Lua. Brinco.”

Luísa Todi, a cantora setubalense, falecida em 1 de Outubro de 1833, também aqui tem o seu epitáfio, não sem notas de riso (jogar o apelido Todi do marido com o achocolatado é uma oportunidade).

Um livro que se lê com gozo. Mas, antevendo poder haver quem não goste do tom posto nesta escrita biográfica, Van Der Ding avisa: “o livro é meu, escrevo sobre o que eu quiser e bem me apetecer. Se não gostam, é questão de escreverem os vossos próprios livros.”

Bom desafio ao leitor!

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