16 Maio 2022, Segunda-feira
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500 palavras: Thiago de Mello e os estatutos da utopia

De 31 de Março para 1 de Abril de 1964, um golpe militar perpetrado no Brasil depôs o presidente João Goulart e iniciou a ditadura militar, que se manteve por duas décadas. Nessa altura, Thiago de Mello (1926-2022) era adido cultural na Embaixada do Brasil no Chile e cultivava intensa amizade com Pablo Neruda, em parte advinda de um sentido de comunhão poética, mas também originada pela proximidade ideológica.

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Na sequência da alteração política verificada no Brasil, Thiago de Mello apresentou quase de imediato a sua renúncia ao lugar e, parodiando o “Ato Institucional número 1” (que as chefias militares brasileiras assinaram em 9 de Abril para sustentarem o seu poder, em onze curtos artigos), redigiu o poema “Os estatutos do homem”, defesa forte da liberdade, cuja primeira publicação ocorreu em 30 Maio no jornal fluminense “Correio da Manhã” (edição 21825) – ironicamente, noutra página do mesmo dia, era noticiada a visita policial à Biblioteca da Faculdade Nacional de Direito, solicitando à bibliotecária a “máxima fiscalização quanto às leituras dos académicos” e deixando um rol dos livros expurgados…

“Os estatutos do homem”, depois integrado a obra “Faz escuro mas eu canto”, mereceria ao longo dos tempos edições autónomas e grande divulgação nas várias partes do mundo – em Portugal, seria publicado em 1968 pelas Edições ITAU, tendo grande circulação na forma de poster.

O poema, em que ressoa o espírito da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, segue a construção do texto jurídico (logo a começar pelo título, “estatutos”), dividindo-se em artigos, numerados (14, no total), correspondendo cada um a uma estrofe, variavelmente iniciados por “fica decretado” (na maioria dos casos), “fica estabelecido”, “fica permitido”, “decreta-se” e “fica proibido”. Entre o prescrito no artigo primeiro (“Fica decretado que agora vale a verdade, / que agora vale a vida, / e que de mãos dadas, / trabalharemos todos pela vida brasileira” – “brasileira” passou depois a “verdadeira”) e o último, o leitor é posto perante princípios que visam influenciar o comportamento da sociedade, levando o ser humano a acreditar que a construção da paz, da alegria, da felicidade e da liberdade é função de todos e de cada um. Apenas um artigo, o último, invoca a proibição, apresentando-se como corolário de tudo o que antes foi estabelecido, tentativa de construção da utopia: “Fica proibido / o uso da palavra liberdade, / a qual será suprimida dos dicionários / e do pântano enganoso das bocas. / A partir deste instante / a liberdade será algo vivo e transparente / como um fogo ou um rio, / ou como a semente do trigo / e a sua morada será sempre / o coração do homem.” Além desse incentivo à acção por parte da sociedade, o poema apela também a valores como a coerência (“os homens / estão livres do jugo da mentira”) ou a fraternidade (“que o pão / tenha sempre / o quente sabor da ternura”), na linha da poesia politicamente comprometida.

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Dedicado ao escritor e jornalista Carlos Heitor Cony (1926-2018), uma das vozes anti-ditadura, este poema viria a ser considerado por Thiago de Mello o seu “ato institucional permanente”, paródia e contestação do “Ato institucional nº 1” que segurara a “revolução” levada a cabo pelo golpe militar… Em 1998, em entrevista a Lêda Rivas, o poeta falaria sobre a sua carreira: “Sou responsável perante o dom que recebi ao nascer, o dom da poesia. Minha vida é uma vida que tem sido útil para os outros. Sou coerente, porque coloquei sempre a minha poesia a serviço da vida.”

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