21 Junho 2021, Segunda-feira
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500 palavras: José-António Chocolate: A palavra como refúgio

“As palavras às vezes são incómodas, desvendam sentimentos, / tornam transparente o que nos vai na alma, como entrando / sem permissão pela fisga do olhar que se escapa / no contentamento vivido, duma memória que nos assalta / ladina e fresca, negando-se à clausura da solidão e do silêncio.” São cinco longos versos que abrem o poema “A força das palavras”, início do livro “A Voz das Palavras”, de José-António Chocolate (Filigrana Editora, 2020), conjunto de poemas em que a reflexão e a construção em torno da palavra se tornam preponderantes, numa tentativa de descoberta do valor que a palavra representa, num circuito de sete partes em que a primeira se cola ao título do livro e a última se apresenta como “Ofício de poeta”.

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O fascínio da palavra é intenso na primeira parte da obra, assumindo-se nas variantes de escrita e caligrafia, de voz e som, de poema e afectos, num entrelaçar das formas de que a palavra se pode vestir, sempre numa demanda por onde passa a recusa do dúbio – “Procuro a magia da palavra que acalma, / desfaz os sons cinzentos trepidantes” – e a emergência da cor – “Um pincel e tinta tivesse e a mão / mestra a suave cor certa não falhasse, / e a palavra em movimento toda floria, / alegre e viva, a dar vida ao que fenece.”

Com a palavra constrói José-António Chocolate um acervo por onde passa uma diversidade de linhas de leitura e de motivações – o apelo do mar em versos ondulados pela cadência de sons nasais e tirando partido das aliterações, os momentos e as figuras familiares como pretexto, as tiradas repletas de ironia a partir de situações observadas, as geografias vividas e sentidas numa interiorização sem limite de tempo, o prazer dos instantes como resultado de um olhar reflexivo sobre a pintura de um objecto ou de um saborear lento das sensações, o recolhimento na procura de momentos de solidão e da memória, a imagem do mundo transportada para o interior da casa ou de um quarto, o poema como forma de contrariar a ausência.

Neste trajecto longo e diversificado, persistem as marcas do oficial que o poeta é, não escondendo o seu trabalho de revelação e de ocultação, duas faces que intensificam o mistério – “Procuro nas palavras a palavra certa, / a que falta descobrir para me descobrir, / a mim que me falta o arco e a seta / e o alvo que sou pretendo encobrir.” É neste jogo de procura que o poeta se confronta com os porquês da vida, dando a conhecer formas de operar e de ver o mundo – “os olhos não foram feitos só para olhar, / abertos parecem nada mais ver do que vêem / e fechados têm um mundo de memórias para visitar.”

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A poesia resulta dos momentos de silêncio que o poeta requer para a sua oficina, descobrindo a voz das palavras, forma de rejeitar o vazio. E, por entre as revelações do seu fazer, impõe-se o valor dado à palavra – “São as palavras o refúgio do silêncio, / a fuga escrita tão por dentro / que a voz das palavras silencia, / aprisionando o medo.” A força da palavra reside, pois, na afirmação da liberdade e na valorização do essencial, em que o poeta surge “sem a roupagem dos dias que nos fazem”.

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