20 Janeiro 2022, Quinta-feira
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InícioOpiniãoO triunfo da estupidez ou a arte de inventar racistas

O triunfo da estupidez ou a arte de inventar racistas

Desabafo sobre um episódio daqueles em que se inventam racistas com grande desembaraço – porque a cabeça de quem vê racistas em todo o lado e racismo em tudo e em nada é deveras criativa. Vivia-se uma época de pandemónio nas escolas. Os governos e ministérios da tutela elegeram os professores como inimigos, desautorizaram-nos, desconsideraram-nos, insultaram-nos e levaram a sociedade a fazer o mesmo – foi o tempo em que qualquer doutoreco, profissional de outra área ou idiota militante se arrogava a dar lições aos professores sobre como ensinar e educar. Os alunos malcomportados sentiam-se na sua praia.

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Uma escola de Setúbal, onde uma catrefada de maraus que não andava lá para estudar, fazia o que queria: desrespeitavam professores e funcionários, quando não os ameaçavam; roubavam e aterrorizavam os colegas da maioria étnica; divertiam-se a pontapear as portas das salas de aula; levavam o caos ao bar dos alunos; comportavam-se como reis no seu reino – um deles pichara por toda a escola, em letras de se ver ao longe: «FULANO, REI DOS BRANCOS». O presidente do novo conselho diretivo, homem com outra experiência de vida e professor determinado e corajoso, esforçava-se para pôr ordem na bagunçada de gangue que subvertia o ambiente escolar e prejudicava, sobremaneira, o normal funcionamento das aulas.

Aula de História e Geografia. A explicação necessária da matéria, depois os alunos a assinalarem os continentes e os oceanos no globo terrestre e no mapa-mundo. O ambiente anima-se, todos participam. No final, chamo a atenção para a pequenez geográfica da Europa, comparada com a África, a Ásia e a América, sublinhando o desenvolvimento, a riqueza e as condições de vida no nosso continente. E lembro os milhões que nos demandam, para aqui recomeçarem a vida, fugindo a guerras, a perseguições e à miséria que assolam os seus países e continentes. E assim termina a aula, o docente de peito cheio, porque um professor revê-se e regozija-se na participação e no entusiasmo (que geram aprendizagens) dos seus alunos.

No dia após, mal entro na escola, informam-me que devo ir falar com o presidente do conselho diretivo. Chegado lá, ouço: «O que é que se passou na tua última aula com a turma tal?». Surpreso, expliquei como a aula tinha decorrido bem, o que nem sempre acontecia, dado tratar-se de uma turma problemática. Mas a surpresa maior veio a seguir. «Sabes, a mãe dos dois miúdos irmãos queixou-se que tu afirmaste que os pretos deviam de ir todos para a terra deles». Embatuquei. O presidente conhecia-me e sabia as minhas ideias políticas – tínhamos trabalhado mais de dez anos na Setenave, éramos amigos. Quedei-me, espantado e mudo, a tentar digerir o que ouvira. Até que retruquei: «E tu não acreditaste nessa calúnia». Não podia acreditar.

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Senti-me ofendido, violentado, revoltado. No outro dia, o presidente diz-me que o problema se agravara: um diretor da associação cultural do bairro dos miúdos, viera deitar mais achas na fogueira em que pretendiam queimar-me no auto de racismo. Já estava mal, fiquei pior. Resolvi então dizer basta! E pedi ao colega que transmitisse aos velhacos: se persistissem na ofensa, iria adquirir um atestado comprovativo da falta de condições psicológicas para continuar a lecionar e pediria baixa médica; a seguir, apresentaria uma queixa-crime, com pedido de indemnização por danos morais causados. Santo remédio. O associativista sumiu; e a mãe difamadora, que no ano letivo anterior armara a estrangeirinha com outros docentes, pediu desculpas, que afinal eu não era racista, que os filhos até gostavam muito de mim…

Lecionei ali quatro anos. Terem-me insultado de racista, foi a gota. Era professor provisório e, apesar de a cada ano letivo correr o risco do desemprego, não mais concorri para aquela escola. Fiquei farto da velhacaria, que vemos repetida em reportagens de ações policiais que recuperam roubos e prendem ladrões – com os polícias e guardas-republicanos a serem apupados de «fascistas» e «racistas». E quanto mais reflito sobre o episódio, mais confundido me acho: não sei se fui vítima de duas criaturas estúpidas, se de dois racistas que gostam de chamar racistas aos outros.

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