29 Junho 2022, Quarta-feira
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Notas adicionais à 1.ª Expedição Científica à serra da Estrela, 1881

Caro leitor, em 6/4, no artigo «Palmela e a 1.ª Expedição Científica à serra da Estrela, em 1881», por falta de espaço e para não enunciar muitas ideias complementares que, embora importantes, dispersariam a leitura, fixei-me em três: pioneirismo e relevância da Expedição; papel que nela teve Hermenegildo Capello; esquecimento que Palmela votou a este seu filho. A riqueza e variedade da informação adicional levaram-me a retomar o tema nestas notas.

  1. Capello, promovido a vice-almirante em 1906, nasceu numa casa (em bom estado) no castelo de Palmela, governado pelo pai, o major do Exército Félix Capello. Teve cincos irmãos, três foram figuras destacadas: João, vice-almirante e engenheiro hidrográfico; Guilherme, vice-almirante e cientista; Félix, biólogo. Em 1860, como guarda-marinha, vai para Angola na corveta D. Estefânia, comandada pelo príncipe D. Luís, e fica três anos na estação naval de África Ocidental. De 1864 a 1866 volta para África e, de 1866 a 1869 está em Angola, seguindo depois para Moçambique. De 1870 a 1872 passa por Cabo Verde e Guiné e segue para a China, onde permanece até 1876. De 1877 a 1879, já capitão-tenente, com Roberto Ivens, capitão-de-fragata (e, inicialmente, Serpa Pinto, major), lança-se à descoberta e registo geográfico das bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze (daí resulta o livro «De Benguela a terras de Iácca», 1881, 2 grossos volumes descrevendo a viagem na África central e ocidental, as aventuras e os estudos dos rios Cunene, Cubango, Luando, Cuanza e Cuango, além da descoberta dos rios Hamba, Cauali, Sussa e Cugho, e notícias sobre as terras de Quiteca, N’bungo, Sosso, Futa, e Iácca). De 1884 a 1885, com R. Ivens, vai a pé de Angola a Moçambique, seguindo o surto expansionista europeu em África anterior à Conferência de Berlim (1885), dedicada à partilha dos territórios pelas potências que os demarcaram e exploraram (daí resulta o livro «De Angola à Contra-Costa», 1886, 2 grossos volumes descrevendo a viagem através do continente africano, com narrativas geográfico-naturais, etnográficas, linguísticas, aventuras e importantes descobertas, como as origens do Lualaba, o caminho entre as duas costas, a visita às terras da Garanganja, Katanga, o curso do Luapula e a descida do Zambeze e do Choa até ao Índico).
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Portugal tenta marcar o espaço entre Angola e Moçambique (através do mapa cor-de-rosa), o que conflituava com o domínio inglês do corredor do Cairo ao Cabo, tendo este país decretado o «Ultimatum» (1890) que inviabilizou a nossa pretensão. Mas as viagens foram muito além da exploração geográfica, tendo sido feitos vários registos científicos: geográficos; magnéticos; meteorológicos; de aves; de conchas fluviais e terrestres; botânicos; de rochas e fósseis.

A importância nacional e internacional de H. Capello é evidente, devendo abstermo-nos de julgamentos morais sobre o que, à luz dos valores actuais, foi negativo na colonização africana do século XIX. Como disse recentemente o grande historiador da nossa História Média e da identidade nacional José Mattoso, «temos de medir, situar e contextualizar os factos, sem esquecer as suas causas e consequências, mas sem os julgar, muito menos pô-los ao serviço de uma causa». Espero que o esquecimento de H. Capello em Palmela e o abandono da casa onde nasceu não resultem de um preconceito ideológico, mas do desconhecimento da sua dimensão histórica.

No artigo de 6/4 falei da hipótese de um protocolo com a Sociedade de Geografia de Lisboa para obter documentos das aventuras africanas de H. Capello, faltou dizer que na parte militar o mesmo se poderia fazer com a Marinha: e assim se recheava a Casa-Museu. É estranho que a casa onde nasceu seja o dormitório do segurança do castelo, numa terra que não tem um único museu: o Ferroviário (Pinhal Novo), foi prometido em 2004; o Arquivo Histórico Municipal (prometido em 2007 com a certeza de que seria construído em 2009); o da Cultura Caramela (houve materiais expostos nas Festas do Pinhal Novo e há na quinta da Fundação COI); o do Queijo (na Quinta do Anjo); o da Vinha e do Vinho, com um potencial além-fronteiras se combinado com uma grande feira internacional, num projecto dos três municípios do vinho da Península (Setúbal, Palmela e Montijo).

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Munícipe de Palmela

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