29 Junho 2022, Quarta-feira
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Palmela e a 1.ª Expedição Científica à serra da Estrela, em 1881

Caro leitor, em 1881, a Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) realizou a 1.ª Expedição Científica à serra da Estrela, da iniciativa de Luciano Cordeiro (1844-1900), escritor, historiador, geógrafo e político, e de José de Sousa Martins (1843-1897), médico e professor catedrático na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (antecessora das faculdades de Medicina). Ambos, e outras 72 destacadas personalidades, fundaram a SGL em 10 de Novembro de 1875, para «promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e afins em território português».

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À Comissão Administrativa da Expedição presidiram Sousa Martins e o capitão-tenente Hermenegildo de Brito Capello (1841-1917), encarregando-se este da logística devido à sua experiência de explorador da África Austral (em 1877-78 fora de Benguela às terras de Iaca, com o capitão-de-fragata Roberto Ivens e o major Serpa Pinto ― este só até ao Bié ― antes de, em 1884-85, ir de Angola à contracosta de Moçambique, com R. Ivens).

A Expedição tinha 100 pessoas, algumas eram os melhores cientistas e especialistas do país (Sousa Martins, Rodrigo Pequito, Mouzinho de Albuquerque, Jayme Batalha Reis, Martins Sarmento, Joaquim Vasconcellos, Júlio Henriques, Jules Daveau e outros, representando 12 secções científicas e as secções auxiliares da SGL), que pertenciam às seguintes áreas: Medicina Geral; Oftalmologia; Hidrografia Médica; Biologia; Botânica; Geologia; Química; Zoologia; Zootécnica; Agricultura; Arqueologia; Antropologia; Etnografia; Cartografia; Topografia; Fotografia. E, ainda, os jornalistas Eduardo Coelho («Diário de Notícias» – Lisboa) e P. A. Ferreira (repórter do «Districto da Guarda» e do «Comércio Português» – Porto), que relataram as ocorrências.

No dia 1 de Agosto de 1881 saíram de Santa Apolónia 42 elementos em 23 carruagens de comboio (com as pessoas, equipamentos e materiais), a que se juntaram, em Coimbra e na Mealhada, os de Coimbra, Porto e Guimarães e, em Celorico da Beira, S.ta Comba, Carregal do Sal, Guarda e Manteigas, os da região.

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O trabalho na selvagem e desconhecida serra, em grande parte desabitada, que encerrava em si mistérios e mitos (p. ex., a lagoa Escura ter ligação ao mar), durou de 5 a 19 de Agosto e foi o primeiro estudo multidisciplinar e sistemático, com orientação científica (pura e aplicada), a que se seguiram outras investigações sobre a serra até hoje. Dele resultou a instalação de um dos primeiros postos de observação meteorológica da Europa, no Poio Negro (altitude de 1450 m), a elaboração de um mapa da região (escala 1:50 000) e sete relatórios publicados em 1888.

Palmela ficou ligada à Expedição através de Hermenegildo Capello, nascido numa casa do século XVIII que existe no castelo de Palmela (onde seu pai, o major Félix Capello, foi governador militar da fortaleza). Bem conservada, tem na parede exterior várias placas: dos 150 anos do nascimento (1991); dos 100 anos da morte de H. Capello (2017); até há poucos dias, tinha outra que dizia: «Após obras de requalificação, será instalada neste imóvel a sede do Museu Municipal».

Sempre a vi fechada desde 1982, quando vim viver em Palmela (vila). Nem os Quadros Comunitários de Apoio desde a entrada na CEE (1986) fizeram o milagre de nela criar uma Casa-Museu desta figura de dimensão nacional tão importante na nossa história, num concelho tão carente delas: vice-almirante; ajudante-de-campo dos reis D. Luís, D. Carlos e chefe da casa militar de D. Manuel II; ministro plenipotenciário de Portugal no Sultanato de Zanzibar; organizador de uma carta geográfica de Angola; delegado do governo num congresso geográfico em Bruxelas; presidente da comissão nacional de cartografia; vice-presidente do Instituto Ultramarino; três condecorações do mais alto nível no país e cinco no estrangeiro; o nosso maior explorador científico-geográfico de África, que nos deixou (com R. Ivens) dois relatos essenciais dessas aventuras: «De Benguela às Terras de Iaca» (descrição de uma viagem na África Central e Ocidental, 1881) e «De Angola à contracosta» (descrição de uma viagem através do continente africano, 1886). Certamente que será possível estabelecer um protocolo com a SGL, que tem um riquíssimo espólio das explorações africanas, e obter documentos fac-similados sobre esta grande figura para a sua Casa-Museu.

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O castelo de Palmela, além da sua posição geográfica ímpar, tem tantos pontos de interesse para visitar que pode prescindir deste equipamento histórico-cultural? O concelho não é paupérrimo em museus? Onde está o Ferroviário (no Pinhal Novo)? O do vinho e da vinha? O do Queijo? E o Arquivo Histórico Municipal? Resta a H. Capello o nome numa rua e numa escola da vila.

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