29 Junho 2022, Quarta-feira
- PUB -
InícioOpiniãoAeroporto do Montijo: tragédia anunciada ou «fava» como brinde para os contribuintes?

Aeroporto do Montijo: tragédia anunciada ou «fava» como brinde para os contribuintes?

Caro leitor, em 14/6/1972 lia-se n’«O Setubalense»: «As obras do Aeródromo de Rio Frio começarão em 1974 e estarão prontas em 1980. E na primeira fase poderá receber entre 25 a 30 milhões de passageiros». Isto provoca-nos um sorriso amarelo, devido ao que aconteceu ao aeroporto anunciado e à tragédia que nos querem servir no Montijo. O termo aeródromo, na altura, designava um aeroporto, mas hoje refere-se a uma pequena instalação aeroportuária; a outra diferença é que se situava em Rio Frio (em Faias, um pouco mais a leste). O aeródromo referido na notícia era o novo aeroporto de Lisboa, cuja localização (depois de, em 1958, se ter falado em Rio Frio) foi estudada durante sete anos entre cinco hipóteses: Fonte da Telha, Alcochete, Montijo, Porto Alto e Rio Frio. Em 1971, o GNAL-Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa (criado pelo D. L. n.º 48902, de 8/3/1969, para «coordenar toda a actividade relacionada com a construção do novo Aeroporto de Lisboa»), publicou um relatório com a escolha: o Rio Frio (confirmada por três consultoras estrangeiras do ramo).

- PUB -

Depois disso, irresponsavelmente e com elevados custos, a localização andou aos empurrões de um lado para o outro: ignorou-se o trabalho feito, gastou-se milhões de euros em estudos inúteis, abandonou-se a localização que permitia a expansão por fases e sem restrições do grande aeroporto de Lisboa em Rio Frio. Aqui seria servido pela plataforma logística do Poceirão, para as mercadorias, em articulação com os portos de Setúbal, Lisboa, Sines e com uma ligação ferroviária a Espanha. E nessa altura cessariam os 600 voos por dia sobre Lisboa, com picos de 700 (números antes da Covid), o risco de acidentes e os efeitos da enorme poluição na saúde das pessoas.

E a Península de Setúbal ganharia uma nova centralidade para o seu desenvolvimento, numa zona de fraca densidade populacional mas com potencial de crescimento, descongestionando as zonas de maior densidade populacional a poente, onde agora se quer construir um sucedâneo em versão raquítica, e com um tempo de vida muito curto.

O aeroporto no Montijo, como alertaram vários especialistas (Carlos Ramos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros e ex-presidente do LNEC-Laboratório Nacional de Engenharia Civil; Mário Lopes, membro da FUNDEC-Associação para a Formação e o Desenvolvimento em Engenharia Civil e Arquitectura e professor no IST-Instituto Superior Técnico; José A. Alves, investigador no CESAM-Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, entre outros), tem muitos riscos: fica na maior e mais importante zona húmida do país, cheia de avifauna (ignora-se a legislação nacional, comunitária e os acordos internacionais para a proteger); a presença maciça de aves é um perigo para a operação aérea; o corredor de circulação dos aviões sobrevoa, a baixa altitude, 300 mil pessoas (contra 400 no campo de tiro de Alcochete, escolhido em 2008); exige prolongar a pista 390 metros num sapal (quem não se lembra da tragédia financeira da estação do metro do Terreiro do Paço); a ANEPC-Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil deu parecer negativo, por causa da possibilidade de tsunamis e de sobrevoar o barril de pólvora que é o Parque Empresarial da Fisipe (no Lavradio); ignora-se o risco de subida do nível médio do mar devido às alterações climáticas; apoia-se num EIA-Estudo de Impacto Ambiental feito à medida, posterior à decisão do Montijo; não há estudo de Avaliação Ambiental Estratégica a comparar as hipóteses de Alcochete e Montijo; esgota-se entre 2030 e 2035, não passando de um remendo temporário e um desperdício de recursos.

- PUB -

Por fim, o acordo entre o Governo e a ANA- Aeroportos de Portugal (da empresa privada Vinci) de, até 2028, esta investir 550 mil milhões de euros no aeroporto Humberto Delgado e 600 milhões na construção do Montijo é ridículo, dadas as condições do terreno. A única certeza é que a Vinci gastará apenas 600 milhões no Montijo: a fava como brinde ficará para os contribuintes.

Comentários

- PUB -

Mais populares

“Queremos ser uma das maiores potências desportivas do distrito de Setúbal”

Tiago Fernandes, presidente do Juventude Sarilhense

Avó e mãe de Jéssica cantaram em programa da TVI enquanto menina estava sequestrada

Família materna da vítima marcou presença em caravana de “Uma Canção Para Ti” na véspera da morte da criança

Revolta no velório de Jéssica obriga à presença de bombeiros e polícia

Avó paterna e alguns populares revoltam-se com mãe da criança durante a cerimónia fúnebre
- PUB -