1 Outubro 2022, Sábado
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500 palavras: Pescadores perseguidos ao largo de Setúbal em 1755

O título é extenso e conta o essencial da notícia: “Relação do notável caso que aconteceu às lanchas da Vila de Setúbal, com três xavecos de Mouros em o dia doze do mês de Maio, pelas onze horas do dia, segundo a notícia que se houve de um mestre de uma das embarcações”. Se o leitor quiser pormenores, terá de ler as sete páginas do relato impresso em Lisboa, provavelmente em 1755.

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Enquanto género, a “relação”, prática desde o século XV, tem carácter noticioso e não periódico, narra um único acontecimento, frequentemente de forma sensacionalista, publicando-se pouco tempo após o evento relatado, recorrendo a testemunhas do ocorrido. O título longo dá respostas a várias perguntas sobre o essencial numa notícia: o que aconteceu, quando e onde ocorreu, quem interveio; falta apenas explicar como sucedeu, desenvolvimento dado no relato.

Neste documento de 1755, que respeita a tipologia do género, ignora-se o nome do autor do escrito, como se desconhece o do mestre que relatou o pesadelo por que passou com a sua companha. A narração do facto que justifica o título acontece apenas no último dos cinco parágrafos do texto; os anteriores fazem considerações sobre a dureza da vida dos pescadores e o “armar o corso” e relatam duas ocorrências de pirataria vividas na zona de Cascais.

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Logo no início, destaca-se o risco que os homens do mar sempre correm por vários motivos, incluindo o perigo de serem assaltados e feitos prisioneiros – prática que opunha povos e religiões (católicos, por um lado, e mouros e judeus, por outro): “Entre todas as fadigas que estão propensas à vida humana e entre todos os laboriosos exercícios de que esta se entretém para conservação e aumento, é o maior e mais penoso aquele que se continua sobre as ondas, cuja inconstância, se bem em umas ocasiões contribui com grossos lucros, em outras dá não menores perdas, sendo a de que menos se faz conta a fazenda e a maior a vida, que a cada instante periga, já no sepulcro das ondas, já no penoso tormento do cativeiro dos Bárbaros.”

Deste relato não está ausente o propósito religioso: a notícia “servirá de aviso a todos os que andam neste exercício da pesca para que sejam devotíssimos da Senhora da Conceição, título de minha especial devoção”, diz o autor. Mas a protectora será outra no caso dos sadinos…

Pelas onze da manhã daquele dia de 1755, catorze barcos de Setúbal andavam na faina, “pescando com bóias e redes no fundo”, sendo “o número das pessoas acima de trezentas e vinte”. O grupo foi surpreendido por “três xavecos de Mouros”, vindos de sueste, adversários que já tinham sido avistados por observadores na Torre do Outão. Ao aperceberem-se da intromissão estranha, os sadinos tentam rapidamente navegar para terra, mas sem esperança, dando-se já “por prisioneiros e cativos”. Na costa, “estava a gente da terra por praias e fortalezas chorando e lastimando-se, pois, a faltarem as lanchas, ficava meio despovoado Setúbal”. O ter surgido no horizonte outro barco, que inicialmente captou as atenções dos invasores, não foi suficiente para a dissuasão e os corsários perseguiram os setubalenses “até quase à barra”. Foi nessa altura que a artilharia “varejou” os inimigos, assim se salvando os pescadores. Estes, “largando bandeira, festejaram o Livramento e, com danças e folias, entraram na vila” e “atribuíram esta felicidade à Senhora da Arrábida, de cuja intercessão se valeram”.

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Estava consumado mais um milagre! E a “relação” valorizava, como era seu propósito, a experiência de vida, acentuando a protecção religiosa…

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