21 Janeiro 2022, Sexta-feira
- PUB -
InícioOpinião500 palavras: Pescadores perseguidos ao largo de Setúbal em 1755

500 palavras: Pescadores perseguidos ao largo de Setúbal em 1755

O título é extenso e conta o essencial da notícia: “Relação do notável caso que aconteceu às lanchas da Vila de Setúbal, com três xavecos de Mouros em o dia doze do mês de Maio, pelas onze horas do dia, segundo a notícia que se houve de um mestre de uma das embarcações”. Se o leitor quiser pormenores, terá de ler as sete páginas do relato impresso em Lisboa, provavelmente em 1755.

- PUB -

Enquanto género, a “relação”, prática desde o século XV, tem carácter noticioso e não periódico, narra um único acontecimento, frequentemente de forma sensacionalista, publicando-se pouco tempo após o evento relatado, recorrendo a testemunhas do ocorrido. O título longo dá respostas a várias perguntas sobre o essencial numa notícia: o que aconteceu, quando e onde ocorreu, quem interveio; falta apenas explicar como sucedeu, desenvolvimento dado no relato.

Neste documento de 1755, que respeita a tipologia do género, ignora-se o nome do autor do escrito, como se desconhece o do mestre que relatou o pesadelo por que passou com a sua companha. A narração do facto que justifica o título acontece apenas no último dos cinco parágrafos do texto; os anteriores fazem considerações sobre a dureza da vida dos pescadores e o “armar o corso” e relatam duas ocorrências de pirataria vividas na zona de Cascais.

- PUB -

Logo no início, destaca-se o risco que os homens do mar sempre correm por vários motivos, incluindo o perigo de serem assaltados e feitos prisioneiros – prática que opunha povos e religiões (católicos, por um lado, e mouros e judeus, por outro): “Entre todas as fadigas que estão propensas à vida humana e entre todos os laboriosos exercícios de que esta se entretém para conservação e aumento, é o maior e mais penoso aquele que se continua sobre as ondas, cuja inconstância, se bem em umas ocasiões contribui com grossos lucros, em outras dá não menores perdas, sendo a de que menos se faz conta a fazenda e a maior a vida, que a cada instante periga, já no sepulcro das ondas, já no penoso tormento do cativeiro dos Bárbaros.”

Deste relato não está ausente o propósito religioso: a notícia “servirá de aviso a todos os que andam neste exercício da pesca para que sejam devotíssimos da Senhora da Conceição, título de minha especial devoção”, diz o autor. Mas a protectora será outra no caso dos sadinos…

Pelas onze da manhã daquele dia de 1755, catorze barcos de Setúbal andavam na faina, “pescando com bóias e redes no fundo”, sendo “o número das pessoas acima de trezentas e vinte”. O grupo foi surpreendido por “três xavecos de Mouros”, vindos de sueste, adversários que já tinham sido avistados por observadores na Torre do Outão. Ao aperceberem-se da intromissão estranha, os sadinos tentam rapidamente navegar para terra, mas sem esperança, dando-se já “por prisioneiros e cativos”. Na costa, “estava a gente da terra por praias e fortalezas chorando e lastimando-se, pois, a faltarem as lanchas, ficava meio despovoado Setúbal”. O ter surgido no horizonte outro barco, que inicialmente captou as atenções dos invasores, não foi suficiente para a dissuasão e os corsários perseguiram os setubalenses “até quase à barra”. Foi nessa altura que a artilharia “varejou” os inimigos, assim se salvando os pescadores. Estes, “largando bandeira, festejaram o Livramento e, com danças e folias, entraram na vila” e “atribuíram esta felicidade à Senhora da Arrábida, de cuja intercessão se valeram”.

- PUB -

Estava consumado mais um milagre! E a “relação” valorizava, como era seu propósito, a experiência de vida, acentuando a protecção religiosa…

Comentários

- PUB -

Mais populares

Pinhalnovense sem jogadores para jogar fez falta de comparência

A 12.ª jornada do Campeonato de Portugal ficou marcada pela falta de comparência do Pinhalnovense no jogo que deveria disputar em casa com o...

Vereador diz que cães vadios fogem com crânios na boca e acusa PS de tratar mal os vivos e pior os mortos

João Afonso volta a criticar serviço nos cemitérios. Autarca do PSD denuncia ossadas lavadas em tanques da roupa e colocadas em caixas de fruta a secar. Nuno Canta diz que é fantasia

Pinhalnovense não tem jogadores para ir a jogo no próximo domingo

No Campeonato de Portugal a situação está muito complicada para os clubes da região porque o Barreirense está numa posição delicada na tabela classificativa...
- PUB -