14 Abril 2024, Domingo
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O que é fazer a coisa certa? Pelos domínios da ética filosófica em tempos de pandemia

Governar em tempos de pandemia significa uma incursão arrojada por territórios que têm tudo menos certeza. O que é, nestas condições extremas, fazer a coisa certa, usurpando uma expressão cara a Michael Sandel o popular filósofo norte-americano? Este é o dilema que deve atormentar os decisores na altura de optar.

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Quando da preparação de uma aula, depois do Governo, sem grande oposição, ter optado por aliviar as medidas por ocasião do Natal, pensei para mim em recorrer a uma conhecida técnica filosófica de apoio à decisão tendo elaborado a seguinte argumentação que apresentei aos meus alunos da UNISETI na sessão de 16 de Dezembro de 2020:
«Imagine que você pode decretar um abrandamento das restrições para o Natal, período em que não haverá limitação às deslocações entre concelhos, entre outras medidas.» Mas, se assim for, segundo uma estimativa elaborada por investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto: «Pelo menos 20.000 pessoas vão estar infectadas no período das festas, a maioria sem saber. Acréscimo de casos e mortes é uma certeza. O Natal sem restrições pode causar mais 1500 mortes!» Queria desta maneira pôr a ênfase na dificuldade de tomar decisões e do peso moral que elas se revestem, convencido, contudo, que o Governo, Presidente da República (e os partidos que opinaram na mesma direcção) estavam dotados de instrumentos científicos que nós desconhecíamos.

Infelizmente, a realidade viria a ultrapassar os piores cenários e Portugal mergulhou numa crise pandémica que guindou o nosso país aos primeiros lugares do mundo em número de infectados, de internados e de óbitos por milhares de habitantes. Fiquei chocado, e a partir daí deliberadamente céptico em relação ao bom fundamento das decisões.

Entretanto, enquanto a situação do país se agravava dia após dia, alastrava um escândalo nos media, dos jornais à televisão e às redes sociais, que as vacinas estavam a ser ministradas a elementos de grupos não prioritários, que, na maior parte dos casos, quando apanhados em flagrante, apresentavam a desculpa de que era o resultado do aproveitamento da dose sobrante. Nos lares, a par dos utentes, vacinavam-se as direcções, presidente à cabeça, e de arrasto, a mulher e os filhos. Noutros casos também o capelão e o autarca. Certo que não era a quantidade, pois pouco significava no conjunto das vacinas ministradas. Era o exemplo, era a moral, era a ética.

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Cabisbaixo, reflecti, como franjas de um povo tão generoso assumiam, nestas condições íngremes, gestos tão pouco edificantes e mesquinhos, o que me levou a passar os olhos sobre a imprensa da nossa vizinha Espanha e logo topei com a seguinte parangona «José Manuel Lorca Planes, bispo de Cartagena, e outros membros da cúpula da Igreja murciana vacinaram-se contra a Covid em 19 de Janeiro no Lar da localidade de Betania.» E também não pertenciam a nenhum grupo prioritário de acordo com o protocolo de vacinação…

Mas, entretanto, o pendor ultracriticista dos nossos comentadores, acentuava a falta de planeamento do plano de vacinas. Como os exemplos que nos costumam apresentar da quase perfeição, são a Alemanha e o Japão, foi a este país asiático que, para rematar, fui buscar este exemplo paradoxal: “O Japão deve descartar milhões de doses da vacina Pfizer devido à falta de seringas especializadas”. Isto é, as seringas padrão no Japão não permitiam retirar seis doses de cada frasco e tal não foi oportunamente antecipado.

Arlindo Mota
Presidente da Uniseti
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