1 Dezembro 2021, Quarta-feira
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500 Palvras. Pedro Narra: a intimidade das flores

Não terá sido por acaso que a jovem do poema do rei D. Dinis se dirigiu a uma árvore para saber notícias do namorado, cujo aparecimento tardava: “Ai flores, ai flores do verde pino, / se sabedes novas do meu amigo?” E as flores, sabedoras, apaziguadoras, enternecidas, responderam-lhe estar ele “são e vivo” e que seriam juntos “ante o prazo saído”, assim alimentando a paixão e dulcificando a espera. O rei poeta sabia que as flores contêm a beleza primordial e, no seu viver selvagem e bravio, espreitam o mundo de que se alimentam e espiritualizam a paisagem.

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“Selvagens – Estuário do Sado e Arrábida” é um repositório de flores, ramo trazido pela lente de Pedro Narra, em edição de autor, livro recentemente surgido, que, em quase 90 fotografias, mostra o que vai na intimidade de mais de 40 flores que o leitor pode encontrar na paisagem arrábido-estuarina. Bastará ao caminhante um olhar atento, que esse é também um dos desafios desta obra – todos podemos ver este halo de beleza que se desprende do jardim natural, não cuidado, que ameniza a paisagem.

O livro deixa que as flores impressionem o observador – a numeração das páginas está ausente, o texto que acompanha as fotografias está reduzido ao mínimo (designação vulgar e científica das plantas, apenas) e as flores animam sozinhas o espaço da fotografia, isoladas do seu contexto para que só elas se revelem. E os olhos vão passando pelas faces desta pequena multidão, que, desde o acanto até à “watsonia bulbillifera”, percorre o alfabeto da selecção feita.

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Surpreende-se o leitor com a alegria das capuchinhas, com os recortes da flor-dos-rapazinhos, com o esplendor de artifício da cenoura-brava, com a dança do rosmaninho, com a aguarela da esteva, com o borboletear da amendoeira, com o desvendar do lírio ou com o ar de conversa das candeias; surpreende-se e fica em contemplação destas flores que se mostram num tom quase narcísico e propositado para chamar a atenção; surpreende-se e deixa-se fascinar pelo jorro de cor e de associações, numa liberdade de visão e de interpretação destas imagens que Pedro Narra escreve.

Depois do périplo por estas selvagens cheias de vida e de alegria, é obrigatória a leitura do prefácio redigido por António Bagão Félix, um testemunho de fé na descoberta e no afecto pelas flores – “Ao percorrer, suave e deliciosamente, as fotografias desta obra, melhor percebi o sentido universal do infinito mundo botânico sempre por descobrir e, não raro, injustiçado pelo ser humano.” Se para mais não servisse, cumpriria esta frase a sua missão pelo que suscita – o que este livro mostra é um olhar atento sobre o universo, um mundo que frequentemente se pisa, que sempre se expõe para que o conheçamos. É que por aqui passam também as plantas que se infiltram pelas junções das pedras da calçada ou que furam os muros dos confinamentos…

“Um hino botânico à vida”, assim classifica Bagão Félix este livro em que “as fotografias são dedicadas e delicadas, profundas e suaves, libertas e capturadas, rigorosas e multifacetadas.” Toda essa adjectivação, absolutamente presente, se compreende porque estas imagens exercem um fascínio, como se fosse amor à primeira vista, sobre quem as vê – seduzido o olhar, este álbum obriga a degustação prolongada para que se saboreie a cor, o cheiro, o movimento, a vida destas selvagens que se dispuseram numa obra de arte. Bem sabia a jovem das cantigas de amigo que falar com as flores era saber sobre o universo!…

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