20 Janeiro 2022, Quinta-feira
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Setúbal de outros tempos: Os Estaleiros Navais do Sado – III

A situação da oficina, ali à borda d´água e à beirinha do parque de campismo cheio de «suecas», a Troia e a serra a compor o idílio, era um paraíso para o rapazio, embriagado nas loucuras da adolescência e da cultura yé-yé. O ambiente era bom, o pessoal dava-se bem. Trabalhávamos e brincávamos uns com os outros, arengávamos cantigas dos Beatles, dos Bee Gees e dos Sheik, do Gianni Morandi, do Roberto Carlos, do Adamo e do Rafael – não imitávamos os cantares do Zeca e do Adriano, do José Mário Branco e do Sérgio, porque havia censura e interdições, ignorância e medos. Por vezes, os mais velhos tinham de nos lembrar que estávamos no trabalho. Pior, às tantas tínhamos o senhor Soares à perna, e ouvíamos das boas, num vozeirão altitonante. O chefe Soares impunha muito respeito. O rapaz que, no seu entendimento, tivesse o cabelo crescido em demasia, chamava-o ao escritório, dava-lhe dez escudos e ditava: – «Aqui tens para o barbeiro. Só voltas a entrar na oficina de cabelo como um homem». O senhor Ferreira Dias, mais jovem mas disciplinador quando necessário, era um chefe mais próximo e bem-disposto, e amigo.

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O trabalho tinha dias complicados. Serrava-se e desbastava-se muito ferro a serrote manual, martelo e escopro, e lima. Dias inteiros. Muitas vezes tinha que se inventar ferramenta. A féria – para entregar à mãe – era magra. Mas havia gosto e orgulho pelo que fazíamos, camaradagem e amizade. E momentos de diversão, para além das cantorias, não faltavam. Como quando choviam baldes de água sobre o desgraçado que se agachava na retrete. Ou nas partidas aos mais novos. Alguém mandava buscar a «pedra de afiar martelos». O senhor João ferramenteiro, sisudo e de seu normal pouco dado a pressas, alinhava, despachando a encomenda. Ajoujado com o peso bestial, o gajinho só descobria o logro quando abria a caixa: um valente matacão de ferro. Maior paródia quando um oficial pedia o «graminho de precisão». Outra vez o ferramenteiro, os olhinhos a brilharem de velhacaria por detrás das lentes grossas, na entrega de outra caixa. «Desembrulha-me a ferramenta com cuidado, pá!», recomendava, grave, o oficial, quase a desmanchar-se. A mecânica parava, na expectativa. O puto ia desembrulhando com mil cuidados o «instrumento», envolto em várias folhas de papel fino e imaculado. «Cuidadinho, que o instrumento é sensível!», bradava o oficial. O rapaz desembrulhava e descobria um respeitável exemplar de faiança marota. A secção escangalhava-se a rir. Homem entre homens é homem, tenha lá a idade que tiver, e o rapaz é que não achava piada nenhuma à brincadeira.

Quando regressei da tropa, a oficina estava assoberbada de trabalho e tinha mais pessoal. Na praia ao lado, construía-se uma barcaça a equipar com um guindaste – fui trabalhar pra lá. Soube-me bem regressar – cheguei numa quarta-feira, e na segunda a seguir apresentei-me. Gostava de trabalhar nos Estaleiros. Mas o acerto do ordenado não me agradou, e seis meses depois saí, para a Lisnave-Margueira. Com mágoa.
Grande oficina e grande escola! Profícuas aprendizagens, grandes amizades, gratas recordações, belos tempos. Uma pena ter encerrado as portas e sido votada ao abandono, por tempo demasiado. Referência entre as oficinas setubalenses durante decénios, e um belo exemplar da história industrial da cidade, salvou-se da ruína e da sanha demolidora dos empreendedorismos cegos que tudo arrasa. Funciona como Centro Náutico Municipal. Também teria dado um excelente Centro Artesanal, equipamento que falta em Setúbal e que agradaria aos artesãos e criativos da cidade e da região. Mas quem decide, decide. É o Centro Náutico. Há uns meses, lavaram-lhe a cara e pintaram-no de azul. Gabo a iniciativa. Já não tem o ar de coisa desvalorizada e desprezada que tinha antes. Longa vida lhe desejo.

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