O jornal O Setubalense de 24 de janeiro de 1973 saiu para a rua com uma manchete surpreendente: CANTEMOS O QUOTIDIANO. Foi para as montras e escaparates, espalhou-se por toda a parte. Esta manchete abria um longo artigo, que ocupava metade da capa do jornal. Em grande, uma fotografia com a seguinte legenda: o principal obreiro da nova canção portuguesa. Quer dizer: José Afonso, ou o Zeca como lhe chamavam os amigos, chegara com grande destaque à primeira página deste jornal. Estávamos em plena ditadura! É justo dizer que O Setubalense era, na medida do possível, um jornal à frente do seu tempo.
O Zeca Afonso vivia por esta altura em Setúbal. Era severamente vigiado pela PIDE/DGS, proibido de dar aulas, de cantar em espetáculos. Muitas das suas canções eram proibidas de tocar na rádio. O autor do artigo, Alfredo Canana, traz ao conhecimento dos leitores várias figuras de primeira grandeza, da música e da literatura, que faziam parte do universo do Zeca. São citados nomes de poetas e cantores que só se podiam ouvir clandestinamente, entre gente de confiança, longe dos bufos e pides: Sofia de Mello Breyner, Manuel Freire, Jacques Brel, Francisco Fanhais, Bob Dylan, António Aleixo. São transcritos versos de canções escaldantes neste ano de 1973, quando a guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné Bissau se adivinhava todos os dias nas entrelinhas, com notícias de mortes de soldados da região de Setúbal rigorosamente truncadas pela Censura e Exame Prévio. É caso para dizer que um ano antes do 25 de abril de 1974, o regime fascista de Salazar e Caetano tentava ingloriamente travar o vento imparável da Revolução que se aproximava.
O jornal cita versos dos autores atrás referidos, como por exemplo:
Não há machado que corte/ a raiz ao pensamento…De África e Vietnam/ povos destruídos, povos destroçados… Vemos ouvimos e lemos/ não podemos ignorar/ o caminho da injustiça/ a linguagem do terror/ a bomba de Hiroshima/vergonha de nós todos…
Apresentado como “o mais autêntico trovador do povo português”, José Afonso é ao longo do artigo considerado o responsável por ter atirado para segundo plano o nacional-cançonetismo, ou seja, os cantores promovidos e permitidos pelo regime da ditadura. Recorda-se que o Zeca conhece a perseguição, está proibido de cantar em público…mas resiste gravando os discos. O jornalista cita o escritor Bernardo Santareno que afirmou que ninguém melhor que José Afonso transmitia os desesperos e raivas do povo português, as suas aspirações de amor, paz, justiça, verdade.
Na mesma edição de O Setubalense de 24 de janeiro de 1973, conta-se ainda que José Afonso tinha sido recebido na redação do jornal, solicitando a publicação de um Esclarecimento. O cantor conta que uns dias antes tinha ido entusiasmado à Póvoa de Varzim, a convite do Clube Desportivo, para cantar no Casino local, num espetáculo que ele fazia questão que tivesse um carácter vincadamente popular. Realça que se tratava do primeiro espetáculo em que a ditadura havia permitido a sua participação. Uma vez lá chegado percebeu que os convites tinham sido feitos para uma “assistência selecionada, isto é, burguesa, excluindo as camadas populares”. José Afonso conclui dizendo que resolveu, na Póvoa de Varzim, recusar a sua colaboração, e regressar a Setúbal.