11 Maio 2024, Sábado

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Brecha da Arrábida obtém classificação de “Pedra Património Mundial”

Brecha da Arrábida obtém classificação de “Pedra Património Mundial”

Brecha da Arrábida obtém classificação de “Pedra Património Mundial”

Rocha passa a integrar o “restrito leque” das 32 pedras que alcançaram este estatuto a nível mundial. Em Portugal só foram classificadas três

 

A brecha da Arrábida mereceu a classificação de “Pedra Património Mundial” por parte da Subcomissão do Património Geológico da União Internacional de Ciências Geológicas (International Union of Geological Sciences, cuja sigla é IUGS), integrando assim o “restrito leque” das 32 pedras que alcançaram este estatuto a nível mundial.

Para a obtenção desta classificação, atribuída em Outubro e agora divulgada, foi necessário submeter uma candidatura, cujo processo foi coordenado por José Carlos Kullberg, professor do Departamento de Ciências da Terra da Faculdade Nova School of Science and Technology (FCT Nova).

A O SETUBALENSE, o também investigador do GeoBioTec disse sentir- -se “muito orgulhoso e compensado, não só como geólogo, mas também como cidadão”. “É uma distinção que é feita a nível mundial por uma ocorrência geológica particular que já foi utilizada como rocha ornamental. O histórico da sua utilização na arquitectura portuguesa remonta há dois mil anos e é uma satisfação enorme ter sido dada esta distinção”.

De acordo com José Carlos Kullberg, a brecha da Arrábida é a “terceira pedra portuguesa com esta classificação”, juntando-se ao mármore de Estremoz e ao calcário Lioz de Lisboa. Além do geólogo, também António Prego, professor do ensino secundário em Almada, e Luís Lopes, Tiago Alves e Ruben Martins, da Universidade de Évora, integraram a equipa que investigou a pedra e conduziu o seu processo de candidatura.

Os cinco autores fizerem “um relatório muito completo” sobre a brecha da Arrábida e foi “a partir da análise desse relatório que a comissão, que tem um grupo de especialistas, achou por bem, com 20 votos em 21 possíveis, aprovar a rocha como ‘Heritage Stone’”.

De acordo com a IUGS, uma ‘Heritage Stone’, ou “Pedra Património Mundial” em português, é “uma rocha que tem sido utilizada em arquitectura e monumentos significativos, reconhecida como parte integrante da cultura humana”.

A candidatura foi submetida tendo em consideração que “a brecha da Arrábida enquadra-se perfeitamente nesta definição, por ter sido explorada como rocha estrutural desde a época romana até ao século XV, altura em que passou a ser utilizada como rocha ornamental associada ao estilo “Manuelino” nos exteriores dos monumentos e, a partir do século XVII, no Barroco, sobretudo em aplicações interiores”.

Em Portugal, explica José Carlos Kullberg, há mais de 80 ocorrências listadas na candidatura da brecha da Arrábida. Destas, 65 dizem respeito a utilizações em monumentos classificados, “24 dos quais são monumentos nacionais e alguns integrados nas classificações da UNESCO”.

Além disso, na lista são igualmente apresentados alguns exemplos de aplicações da pedra, não só em Portugal, como é o caso do Convento de Jesus, em Setúbal, assim como na Áustria, França, Espanha, Reino Unido, Brasil e Moçambique.

Processo de candidatura começou em 2019 e terminou o ano passado

Sobre o processo de candidatura a “Pedra Património Mundial”, o geólogo explica que este começou em 2019. “A candidatura tem de começar com a comprovação, através de artigos científicos, da relevância da rocha que se submete a classificação. A candidatura não começou com a equipa completa. Começou comigo e com um mestre que foi meu orientando. Começámos a reunir informação relevante do ponto de vista científico”, diz.

“Um artigo publicado numa revista internacional foi a base” para a dupla apresentar a candidatura. Contudo, a comissão “considerou que era importante ter as características técnicas da rocha, o que não era possível ter na altura”.

“A brecha da Arrábida é uma excepção notável. Na comissão perceberam que a rocha está ‘extinta’ porque desde que o Parque Natural da Arrábida foi criado que as explorações foram proibidas e, portanto, a rocha está lá, existe no terreno, mas não pode ser explorada”, explica.

Uma vez que “a rocha ‘extinguiu-se’ em termos de exploração em 1975, quando ainda não existia nenhum catálogo de rochas ornamentais em Portugal”, foi aí que entraram em ‘acção’ “os colegas da Universidade de Évora que têm equipamento específico para fazer essa determinações técnicas”.

“A partir de amostras de um produtor que ainda tinha em reserva fizeram-se esses ensaios, que, em 2022, já estava terminados. Depois fizemos, já com cinco autores, um acrescento à informação da candidatura [inicial]. Fez-se um relatório muito completo e foi a partir da análise desse relatório que a comissão analisou a proposta”, acrescenta.

A classificação foi atribuída pela Subcomissão do Património Geológico da IUGS, “parceira da UNESCO para diversos assuntos relacionados com as geociências”, no passado mês de Outubro, explica a FCT Nova em nota publicada no seu sítio oficial na internet.

Para a aprovação da brecha da Arrábida como “Pedra Património Mundial” foram analisados diversos factores, como “a importância histórica e a relevância arquitectónica das [suas] aplicações, aliadas aos valores geológicos, culturais e pedagógicos”.

Jaspe Geólogo apela às entidades e à Câmara para que preservem pedreira

O geólogo José Carlos Kullberg lançou um apelo às entidades competentes e ao município de Setúbal para que “se forme um grupo de trabalho no sentido da preservação e do melhoramento dos afloramentos que estão na Pedreira do Jaspe”.

Isto tendo em consideração que se trata da pedreira no Parque Natural da Arrábida onde está “a última e melhor evidência que existe da ocorrência natural da brecha da Arrábida”, sendo considerada” um dos elementos mais importantes da geologia da Arrábida”.

“A pedreira está a degradar-se porque as frentes estão cobertas de líquenes e as pessoas, quando vão lá, acham pouca piada a uma rocha que tem, neste momento, relevância a nível mundial. Aliás, estão lá colocados os últimos blocos extraídos da exploração e que se estão a degradar porque a rocha está exposta aos elementos naturais”, explica.

Por este motivo, o professor do Departamento de Ciências da Terra da Faculdade Nova School of Science and Technology (FCT Nova) defende a criação de um grupo de trabalho, afirmando estar disponível para ajudar.

“Estou disponível para dar, dentro do meu conhecimento, aquilo que poder dar de melhor para uma finalidade nobre que venha a favorecer o turismo e contribuir para a divulgação do nosso património”.

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