Presidente do INEM lamentou o desfecho fatal e recusou que o atual sistema de triagem tivesse tido qualquer influência
O INEM abriu uma auditoria à chamada recebida na terça-feira de um utente do Seixal que morreu depois de ter estado três horas à espera de socorro, anunciou o presidente do instituto.
“Esse primeiro passo foi determinado e essa auditoria à chamada está a ser feita”, disse Luís Cabral, em declarações aos jornalistas no Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) de Lisboa.
O presidente do INEM lamentou o desfecho fatal e recusou que o atual sistema de triagem tivesse tido qualquer influência.
Luís Cabral explicou que a procura de meios se iniciou 15 minutos depois de a chamada ter sido recebida, mas as ambulâncias não estavam disponíveis “porque estavam a ser retidas nas diferentes unidades de saúde da margem sul”.
Disse que o sistema funcionou, mas os meios não estavam disponíveis, lamentando a retenção de macas nos hospitais.
“Estamos a atender mais rapidamente, identificar melhor as situações e fazemos uma melhor triagem. Se os meios que nós temos ao dispor estiverem disponíveis, vamos estar a responder em conformidade”, afirmou, acrescentando: “Não posso ter hospitais a funcionar com macas de reservas dos bombeiros”.
O responsável disse ainda que foram dadas indicações para que, a partir de agora, qualquer maca retida seja recolhida para que os hospitais percebam que as macas servem para a resposta de emergência que o INEM precisa de dar aos cidadãos.
“Não podemos deixar a maca e trazer ambulância sem maca porque esta depois não pode dar resposta”, acrescentou.
Sobre o novo sistema de triagem, recusou que tivesse tido alguma influência no desfecho fatal deste caso, afirmando: “Antigamente não havia monitorização dos tempos, os casos aconteciam e não havia esta perceção nas notícias”.
Ainda sobre o tempo de resposta, Luís Cabral disse que, em novembro, quando chegou à liderança do INEM, o tempo de atendimento de chamadas do 112 era superior a dois minutos e agora está a responder-se em menos de 20 segundos, mas voltou a insistir na necessidade de ter os meios disponíveis para poderem ser acionados quando necessário.
“Aquilo que nós queremos garantir é que as nossas macas que estão no hospital voltem com as ambulâncias e que possam ser utilizadas novamente”, acrescentou.
Disse ainda que o INEM já está a monitorizar os tempos de resposta e que para aferir dados com qualidade precisa de o fazer durante mais algum tempo, explicando que neste momento, com o pico da gripe, o INEM está a receber mais de 5500 chamadas/dia.
“Tem de haver aqui algum tempo também no período normal, ou seja, naquilo que é a nossa atividade, nas cerca das 4500 chamadas por dia, para poder fazer essa contabilização”, explicou.
Bombeiros mais próximos do socorro ao doente que morreu no Seixal foram contactados pelo CODU às 13h15
Os bombeiros mais próximos do socorro ao doente que morreu no Seixal receberam uma chamada do CODU às 13h15 a solicitar ambulância sem especificar a ocorrência nem o local, disse à Lusa o presidente dos Bombeiros do Seixal.
Segundo Bento Brázio Romeiro, na linha do tempo da ocorrência, entre as 11h20 e as 14h09, a Associação Humanitária de Bombeiros Mistos do Concelho do Seixal, distrito de Setúbal, recebeu apenas esse contacto do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), tendo a corporação indicado que não tinha disponibilidade de ambulâncias.
Contudo, adiantou, neste contacto realizado às 13h15 não foi referido o motivo do pedido nem o local da ocorrência.
Um homem morreu na terça-feira no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro do INEM, confirmou o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, admitindo que o novo sistema de triagem possa ter influenciado o desfecho.
A Lusa teve acesso à fita do tempo deste caso, que mostra que o homem, de 78 anos, ligou pela primeira vez a pedir socorro ao INEM pelas 11h20 de terça-feira, tendo esta situação sido classificada como prioridade 3 – que prevê o acionamento de meios em 60 minutos -, mas apenas foi enviada a viatura médica pelas 14h09, quase três horas depois.
A fita do tempo regista, pelas 11h23, que a vítima tinha dado uma queda, mostrando-se agitado, confuso, sonolento e prostrado.
Apesar de ter sido considerada uma situação de prioridade 3, mais de uma hora depois, pelas 12:48, a fita indica que a Cruz Vermelha do Seixal não tinha ambulância, que as ambulâncias de Almada e Seixal estavam ocupadas e, pelas 13h29, houve uma segunda chamada para o INEM a questionar a demora de meios.
Pelas 14h05 houve uma nova chamada e foi registado que a vítima estava em paragem cardiorrespiratória e pelas 14h09 foi enviada a viatura médica de Almada, que entretanto ficou livre.
Hoje, em conferência de imprensa, o presidente do INEM atribuiu a culpa à retenção de macas nos hospitais, explicando que a procura de meios começou logo 15 minutos após a chamada ter sido recebida, mas não havia ambulâncias disponíveis.
“O que nós queríamos na realidade era enviar a ambulância ao fim de 15 minutos, foi isso que foi decidido pelo INEM, por via das nossas prioridades, mas infelizmente não havia ambulâncias disponíveis na margem sul para dar esta resposta”, afirmou Luís Cabral.
Segundo o responsável, a prioridade que foi definida “foi exatamente” a mesma que teria sido definida no sistema de prioridades que o INEM tinha anteriormente, ou seja, uma prioridade urgente.
“A resposta do INEM foi dada dentro daquilo que era o prazo. Fizemos a nossa primeira tentativa de ativação de meios. Infelizmente, e como tem sido notícia em todos os órgãos de comunicação social do país, há uma limitação muito significativa de ambulâncias, principalmente na margem sul, por via da retenção dessas ambulâncias nas unidades de saúde”, acrescentou.
Sobre a questão das ambulâncias, o presidente da Associação Humanitária de Bombeiros Mistos do Concelho do Seixal, Brázio Romeiro, explicou que efetivamente naquele momento não existiam ambulâncias disponíveis na corporação e que nos últimos dias as macas têm ficado retidas no hospital Garcia de Orta, em Almada, pelo que as viaturas regressam ao quartel para que sejam colocadas novas macas que permitam fazer outros serviços.
O responsável adiantou que tem havido muita pressão na atividade operacional e que nos últimos dias chegaram a ser feitos 44 serviços diários.
Durante 2025 os Bombeiros Mistos do Concelho do Seixal realizaram 12.366 serviços.