10 Maio 2024, Sexta-feira

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“Se eu conseguir ajudar uma pessoa que seja a fazer as pazes com o passado a minha missão já está cumprida”

“Se eu conseguir ajudar uma pessoa que seja a fazer as pazes com o passado a minha missão já está cumprida”

“Se eu conseguir ajudar uma pessoa que seja a fazer as pazes com o passado a minha missão já está cumprida”

Obra da autora e jornalista Marta Martins Silva detalha testemunhos de 21 pessoas que deixaram para trás as suas vidas em África

 

Foi com o pensamento em homenagear os avós e todos aqueles que tiveram de deixar uma “vida feliz” em África que Marta Martins Silva se debruçou para dar vida à obra “Retornados – e a vida nunca mais foi a mesma”, um livro com mais de vinte testemunhos de pessoas reais que vieram para Portugal com uma ‘mão à frente e outra atrás’.

Mulheres, crianças e homens com vidas já feitas. As mais de 100 páginas representam um pouco de todos os grupos etários e, principalmente, dão voz a pessoas que durante tanto tempo se escondiam atrás das memórias que estão prestes a completar 50 anos.

O objectivo da jornalista e escritora é que, além dos testemunhos que recolheu através de um longo trabalho de investigação, possa também ajudar quem lê a ir buscar memórias. “Estas pessoas estão a voltar a ir buscar as memórias e a puxar o novelo, e se eu conseguir ajudar uma pessoa que seja a fazer as pazes com o passado – porque eu acho que não é saudável nós termos coisas que não queremos e que tentamos apagar, porque elas estão dentro de nós e aconteceram, moldam-nos – a minha missão já está cumprida”, detalha em declarações a O SETUBALENSE.

Neste sábado Marta Martins Silva esteve na Biblioteca Municipal de Setúbal para apresentar a sua obra – depois de ter estado há umas semanas em Sesimbra – uma região onde faz sentido que o livro seja divulgado, tendo em conta que foi um local que, à data, recebeu muitos destes refugiados. “Estou aqui a fazer um périplo na região, muito porque é uma região que recebeu à época muitos retornados e por isso faz-me senti- do também passar por aqui e ouvir as histórias dos setubalenses”.

Antes mesmo de se aventurar e palestrar para o público mais velho Marta esteve em algumas escolas do concelho setubalense para tentar transmitir aos mais jovens um pouco de alguns dos acontecimentos que, diz, fazem parte do nosso passado recente.

“Tenho ficado surpreendida porque alguns são bastante jovens, são do nono ano, mas eu acho que há uma atenção – não de todos, como é evidente – e uma certa emoção. Acho que eles conseguem sentir-se tocados por aquilo que é dito e aquilo que digo muito é ‘isto não foi há muito tempo, o que estas pessoas passaram foi há 50 anos, os vossos pais, muitos deles, já eram nascidos’. Isto aconteceu a 600 mil pessoas que foram obrigadas a abandonar a terra, que consideravam sua e tiveram de vir para Portugal, foi há pouco tempo que este enorme êxodo humano aconteceu”.

Ao recorrer à comparação de todos os refugiados que vemos ao dia de hoje, tendo em conta os vários conflitos que o Mundo tem vindo a presenciar, explica que, para os mais novos, não tem sido difícil compreender as dificuldades. “A palavra refugiados não nos é estranha nos dias de hoje – faço também muito essa comparação porque todas as escolas têm crianças que estão refugiadas, que vieram destes conflitos, que agora temos estado a assistir. Portanto, acho que é fácil para eles porem-se um bocadinho neste papel, se nós conseguirmos mostrar-lhes isso por um lado, que isto pode acontecer em qualquer momento”.

Apresentações têm levado a partilha de testemunhos

Ao levantar um bocadinho do véu de um livro que já fez parte dos tops dos mais vendidos em algumas livrarias, Marta Martins Silva conta um pouco da história de José Silva, uma criança de 12 anos que foi obrigada a deixar de ser jovem para garantir a sobrevivência de centenas de pessoas.

“Claro que os tempos eram outros, mas tenho uma história aqui no livro que é do José Silva, que com 12 anos veio a conduzir o carro da mãe da terra onde ele vivia, em Angola, até à fronteira com a África do Sul, teve esta responsabilidade porque o pai levava o camião e a mãe ia cozinhar na parte de trás do camião para todas as centenas de pessoas que iam atrás deles a fugir. Quando ele chega ao campo de refugiados na África do Sul, o José, a responsabilidade que lhe dão com 12 anos, mais uma vez, foi de distribuir a comida para todos os refugiados. Eu gosto muito de lhes mostrar [nas escolas] as crianças que os pais mandaram vir sozinhas para Portugal para as proteger”.

Admite que foram histórias como estas que fizeram com que, na apresentação que fez em Sesimbra, um homem ganhasse coragem e falasse sobre uma parte da sua história de vida que até então tinha deixado fechada a sete chaves.

“Aconteceu em Sesimbra uma coisa muito tocante, a dada altura, um senhor do público pediu para falar e disse que em 50 anos era a primeira vez que dizia que era retornado. Ele tinha guardado este segredo este tempo todo. Estas pessoas guardaram todas – aqui nas caixinhas – memórias muito dolorosas que muitas fizeram por esquecer e sobre as quais não falam, até porque houve um rótulo muito grande, um estigma muito grande dos retornados e elas optaram por, a dada altura, deixar de falar disso”.

Professor Alberto Pereira ajudou a enquadrar obra

A sala estava composta e não faltou conversa, que nunca é suficiente, na apresentação da obra “Retornados – e a vida nunca mais foi a mesma”. Foi com a ajuda do historiador e professor setubalense Alberto Pereira que a autora Marta Martins Silva esteve na tarde deste sábado na Biblioteca Municipal de Setúbal a apresentar uma obra que tem uma missão muito nobre.

“Por um lado, eu vinha de escrever e editar dois livros sobre a guerra colonial e percebi com os antigos combatentes, também eles protagonistas da nossa história e também eles que calaram muito tempo aquilo que viveram na guerra e que a dada altura, começaram a ter necessidade de partilhar. Percebi que a minha missão era dar voz às pessoas que durante muito tempo não a tiveram. Escrevi estes livros sobre a guerra, continuava a ter aquele fascínio por África. Pensei o que é que se seguirá, o que é que fará sentido a seguir? Sabia que queria continuar neste período da história contemporânea, queria continuar em África e depois o gatilho foi emocional porque os meus avós foram retornados, pensei, porque não? Se calhar chegou a altura de também eu ir buscar este passado para os compreender melhor”, revelou Marta em entrevista a O SETUBALENSE.

Os avós já não puderam assistir ao lançamento da obra física. A memória, e a dedicatória deste livro, servem para isso mesmo, guardar estes elementos fundamentais na vida e na escrita de Marta Martins Silva.

“Chega numa altura um bocadinho tardia porque infelizmente nós achamos que os nossos avós são eternos, e eles já não estavam cá para me contar as histórias. Fiquei com algumas que me lembro dos jantares de Natal, dos almoços de Páscoa e os meus avós falavam muito de África – foram muito felizes lá”.

O processo de toda a produção literária não foi fácil, mas nem por isso deixou de ser um desafio que a também jornalista se propôs a enfrentar. O produto final é fruto de um trabalho que começou por si própria, mas que rapidamente se espalhou por outras pessoas.

“Comecei por procurar pessoas que eu já conhecia, também familiares, que tinham passado por isto, uma ferramenta muito importante foram os grupos retornados nas redes sociais, porque a dada altura as pessoas começaram a juntar-se com a ajuda da internet para recuperar também memórias daquele tempo. Entrava nos grupos, e percebia logo pelos comentários das pessoas que tipo de vivência tinham tido, que tipo de regresso tinham tido e seleccionava logo aqueles que me pareciam aquilo que eu queria. E depois houve também muito ‘passa a palavra’”.

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