12 Junho 2024, Quarta-feira

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“Temos de aproveitar o fluxo turístico que está disposto a comprar vinhos a bons preços”

“Temos de aproveitar o fluxo turístico que está disposto a comprar vinhos a bons preços”

“Temos de aproveitar o fluxo turístico que está disposto a comprar vinhos a bons preços”

Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), afirma que “principal desafio é valorizar os vinhos para conseguir vender a melhor preço”

Ano e meio depois de se ter realizado a última edição do Concurso de Vinhos da Península de Setúbal (CVRPS), o que mudou de Novembro de 2022 para agora?

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A conjuntura de mercado mudou muito daí para cá. Quando nos reunimos há ano e meio, em Sesimbra, estávamos todos com um sentido muito positivo, até talvez de alguma euforia, porque tínhamos ultrapassado a pandemia sem grandes problemas. No entanto, de há um ano para cá, as vendas começaram a cair devido à inflação, subida das taxas de juro e aos encargos das famílias com a habitação. Creio que esse foi o principal factor de desaceleração do consumo de vinho no mercado nacional.

Qual o ponto da situação na região neste momento?

Em Portugal e na nossa região, a vindima do ano passado ainda foi relativamente pacífica. Na Península de Setúbal sempre tivemos historicamente ‘stocks’ muito baixos. Neste momento, como ainda não se percebe se este contexto de mercado é muito conjuntural ou tem muito de estrutural, só poderemos aferir melhor da situação nos próximos meses. Para a vindima deste ano, esperamos que na região não haja ainda grandes problemas.

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Quais as principais preocupações do sector?

No sector da produção de vinho, os grandes problemas surgem quando os viticultores se aproximam de uma vindima e os seus habituais compradores, que não sócios das adegas cooperativas e vendem a sua uva a privados, começam a não querer receber a uva. Muitas vezes nem está relacionado com a questão do preço. Há regiões em Portugal em que há esse clima de incerteza. Há um excesso de oferta de vinho, há vinhos a serem vendidos, parece, abaixo do preço de custo. A aflição leva a isso e todos são afectados. Felizmente não temos grandes problemas, mas estamos a sentir que as nossas vendas estão a diminuir fruto desse clima de desespero de vinho vendido a qualquer preço, por vezes mesmo abaixo do custo de produção.

E ao nível dos principais mercados de exportação, qual o balanço?

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Há um misto de várias circunstâncias. É também uma questão de inflação, que é um problema global, mas também das guerras como a da Ucrânia e, mais recentemente, o conflito em que intervém Israel. Estes aspectos têm vindo a causar imensa perturbação, aumento dos custos e retração de consumo. Um produto como o vinho, que é muito competitivo e é produzido nos quatro cantos do mundo, fez com que de repente, num curto espaço de tempo, a oferta tenha começado a ficar desajustada pela procura.

Mantém-se o nível de exportações de anos anteriores?

Ao nível dos nossos principais mercados, sim. No entanto, há mercados que desaceleraram mais do que outros. Há também os que se têm mantido, sendo o Brasil, que é muito importante para Portugal e para a região, um caso flagrante dessa situação. Por outro lado, mercados importantes têm sofrido perturbações e as exportações têm diminuído um pouco. A China tem sido um problema que vem detrás porque tem vindo sempre a diminuir desde o Covid. As exportações também caíram em Angola devido à questão cambial da desvalorização da sua moeda. Há diversos fenómenos em vários mercados que levam a uma genérica diminuição de vendas.

A realização do evento no concelho de Santiago do Cacém pode ser encarada como uma espécie de descentralização?

Quando entregámos os prémios em Sesimbra (Novembro de 2022) resolvemos iniciar um processo um bocadinho de descentralização, entregando os prémios em concelhos diferentes em cada ano. Na altura, Álvaro Beijinha, presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, estava ao meu lado e lançou-me o desafio de realizar a edição seguinte neste concelho. A margem sul do Sado e do distrito tem sido muito dinâmica nos últimos anos com o surgimento de novos projectos. Entendemos que faria sentido fazer uma entrega de prémios aqui e o resultado está à vista.

Apesar de todas as dificuldades existentes, verifica-se que continuam a surgir novos produtores…

Sim. Reconheço que a circunstância de termos vindo ao sul do distrito tenha feito com que fizéssemos algum ‘forcing’ para que os produtores dos concelhos de Grândola, Alcácer do Sal, Santiago do Cacém e Sines concorressem. Vários fizeram-no e esse aspecto traduziu-se nos prémios que obtiveram.

O nível dos participantes que estiveram a concurso foi semelhante à última edição?

Manteve-se mais ou menos. No pós-Covid o número de participantes diminuiu um pouco, tem desde aí andado entre os 18 e 22 e este ano reduziu um pouco. O número de vinhos a concurso também foi menor.

Quais os maiores desafios para um sector que nos últimos anos tem-se vivido um contexto de instabilidade?

Admitindo que a conjuntura adversa de mercado não nos vai afectar muito no volume de vendas, uma vez que estamos num patamar muito elevado de certificação – 85% dos vinhos da região são comercializados como vinhos regionais da Península de Setúbal, vinhos de Palmela, Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo de Setúbal –, o nosso principal desafio é valorizar para conseguir vender a melhor preço. Desse modo, as adegas podem pagar melhor aos viticultores. Quanto mais se valorizarem os vinhos, melhor podem ser pagas as uvas, melhor qualidade podem ter e, consequentemente, melhores vinhos se produzem. É um círculo virtuoso que permitirá aumentar a notoriedade. Um estudo de mercado recente diz-nos que os consumidores habituais e não só estão disponíveis a pagar mais pelos nossos vinhos porque reconhecem a qualidade que têm.

O turismo tem cada vez mais um papel importante na venda dos vinhos…

É muito importante e já o referi várias vezes. Toda a região à volta do Parque Natural da Arrábida, no arco ribeirinho entre Almada e Alcochete e, ainda mais na zona Sul do distrito, entre Tróia e Porto Covo, têm crescido muito a nível turístico. Temos que procurar aproveitar este imenso fluxo turístico que está disposto a comprar vinhos a bons preços.

Uma das grandes lutas da CVRPS tem sido procurar que a restauração da região tenha cada vez mais vinhos da região nos seus estabelecimentos. Têm conseguido?

Já foi muito pior do que é, mas temos ainda muito caminho a percorrer. Gostava que aquilo que é nosso estivesse muito mais presente na região. Claro que ninguém tem exclusivos em região nenhuma, mas a presença desses vinhos, com alguma diversidade, a prova dos mesmos deveria ser mais incentivada.

A Casa Ermelinda Freitas foi a mais premiada no XXIII Concurso de Vinhos da Península de Setúbal. Esse facto vem salientar a importância da mesma na CVRPS?

É o reconhecimento de uma marca que se tornou em uma das principais referências da região, Não há novidade nenhuma nas distinções que recebeu e que são um reflexo da consistência e consolidação. Acaba por ser normal, mas essa normalidade e o sucesso que se tem dá muito trabalho.

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