Foi dado “carácter prioritário” à investigação. Sofia foi a única bebé recolhida pela viatura de transporte do colégio no dia da tragédia
O Ministério Público instaurou um inquérito ao caso da bebé que morreu na quinta-feira esquecida dentro de uma viatura à porta da creche, em Almada, “tendo-lhe conferido caráter prioritário”, afirmou fonte da Procuradoria-Geral da República. “De imediato, foi determinada a realização de autópsia médico-legal, a qual pressupõe a realização de todos os exames periciais necessários a aferir da causa de morte”.
Sofia, a bebé de 18 meses, foi a única criança recolhida na quinta-feira no Peugeot 5008, carro de transporte escolar do colégio O Mestre Cuco, conduzido por uma funcionária da instituição. Esta funcionária, conhecida por Cácá, costumava fazer transporte de crianças e na semana passada chegou a levar as crianças do colégio à praia. A viatura tinha a identificação de transporte escolar e os pais chegaram a receber notificação de que a criança estava ao cuidado da creche, como todos os dias desde há um ano, foi possível apurar.
Os pais receberam a confirmação, através de uma app que o colégio usa, de que a menina já estava aos cuidados da instituição. Deveriam ter recebido uma segunda informação, de que a bebé tinha dado entrada na sala, mas nunca chegou. Ainda assim, não suscitou alerta, uma vez que a bebé era transportada desde há um ano e terá havido outras vezes em que esse segundo alerta não foi enviado.
A bebé foi encontrada perto das 16 horas, na altura em que a mãe a foi buscar, num outro pólo do mesmo colégio, a 1,5 quilómetros, na Rua Alfredo Keil, também no centro de Almada. Nesse momento foi dado o alerta para a sede e uma funcionária dirigiu-se para a viatura, no sentido de ir ao encontro da mãe. Foi aí que esta funcionária deu conta de que a bebé tinha sido esquecida.
No momento da descoberta, instalou-se o pânico na escola e todas as crianças que estavam no recreio, no pátio do colégio com vista para a estrada, foram imediatamente recolhidas para o interior. Ficaram brinquedos, toalhitas e até malas de fraldas no exterior. Não é certo que a funcionária que deu com Sofia fosse a mesma que a tenha ido buscar a casa.
Após o alerta, às 15h55, acorreram ao local os Bombeiros Voluntários de Cacilhas, PSP e socorristas do INEM que a encontraram em paragem cardiorrespiratória. Apesar das manobras de reanimação, primeiro pela equipa da PSP, a primeira a chegar, que ainda tentou a respiração boca a boca, a bebé já apresentava alguma rigidez. É provável que a menina tenha falecido nas primeiras horas da manhã. Sofia foi alvo de manobras de reanimação durante 45 minutos, mas nunca teve qualquer reação e o óbito foi declarado no local pela equipa da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Hospital Garcia de Orta.
Colégio, bispo e presidente da autarquia reagem
A direção do colégio publicou um comunicado na página que administra no Facebook. “É com profunda consternação e imensa dor que a direção do Colégio O Mestre Cuco se viu esta tarde [quinta-feira] confrontada com o trágico acontecimento que vitimou uma das crianças à nossa guarda. Neste momento de sofrimento indescritível, queremos expressar as nossas mais sentidas condolências aos pais e à família, assim como a todos os que lhe eram próximos. Não existem palavras capazes de traduzir a dimensão da sua irreparável perda”, lê-se no comunicado.
Na publicação, a direção do colégio adianta ainda que está “a acompanhar a situação com a máxima seriedade e sentido de responsabilidade, colaborando com as entidades competentes no apuramento rigoroso de todos os factos”.
Ainda de acordo com o comunicado, a diretora do colégio estava de férias, mas regressou de imediato a Almada “para acompanhar pessoalmente a situação”. “Neste momento particularmente difícil, a prioridade do colégio é prestar todo o apoio possível à família, às crianças, às suas famílias e a todos os profissionais que integram a nossa comunidade educativa”, lê-se ainda no documento.
Quem também reagiu à tragédia foi o Bispo de Setúbal, cardeal D. Américo Aguiar, em nota publicada na página online da Diocese de Setúbal. “Que esta dolorosa tragédia desperte em todos nós uma renovada cultura de cuidado, de atenção e de responsabilidade para com a vida, especialmente a dos mais pequenos e vulneráveis”, escreveu, ao mesmo tempo que pediu respeito, silêncio e compaixão e mostrou solidariedade para com pais, familiares, amigos e “todos os que partilham este sofrimento”.
Também a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, deixou uma mensagem na sua página no Instagram. “Os serviços competentes [do município] encontram-se a acompanhar a situação e a desenvolver todas as diligências necessárias para o apuramento dos factos”, anunciou a edil, que lamentou a perda. “Não há palavras que possam aliviar o sofrimento. Hoje [quinta-feira] é um dia de profunda tristeza para o nosso concelho. A toda a família, deixo um abraço sentido e as mais sinceras condolências”, escreveu a autarca. Com Lusa