Há zonas do nosso país em que o desenvolvimento, necessário e bem-vindo, coloca enormes desafios ambientais, para não falar dos desafios estéticos, que não são insignificantes. Uma dessas zonas está no concelho de Grândola.
Nos últimos anos, assistiu-se a uma onda de construções em todo o seu litoral que, em muitos casos, nos fazem perguntar como foi possível que a Câmara Municipal e as demais entidades envolvidas tivessem licenciado algumas das construções com que se depara quem percorre o concelho.
Edificações em cima das dunas, com alturas que ultrapassam a copa das árvores, em que deixou de existir a preocupação de usar materiais naturais, integrados na paisagem, e se passou a usar estruturas enormes, que agridem o ambiente e chocam com a harmonia da natureza.
Como se não bastassem aos habitantes do concelho as dificuldades de acesso a múltiplas praias, com a necessidade, por parte do Governo, de forçar a construção de acessos públicos e de infraestruturas básicas como lugares para estacionamento, com os promotores a tentarem contornar as suas obrigações numa deriva desesperada, anunciando como privado aquilo que é património de todos, nos últimos tempos esses mesmos habitantes veem crescer autênticos monstros que rompem a linha da vegetação e se impõem na paisagem que se vai deteriorando. Isto, se não forem agricultores e, em especial, orizicultores. Porque se forem, ainda terão de sofrer o desvio da água imprescindível à sua atividade.
Nem eu, nem o partido que pelo qual fui eleita, alguma vez defendemos o estrangulamento da iniciativa privada. Muito pelo contrário. Mas o que não se pode defender ou suportar é que os empreendedores privados fomentem práticas limitativas dos direitos dos cidadãos ou agressoras do ambiente.
Exemplo paradigmático disto é o novo empreendimento que cresce a grande velocidade em Tróia. Podem até ter sido cumpridas todas as exigências legais. Não sei, mas vou saber. Mas se assim tiver sido, então será a lei que permite tal aberração que não serve.
Tróia tem, para o bem e para o mal, uma atividade sazonal. Este ano, quem por lá não andou no inverno deparou-se, no verão, com um monstro que rompeu das dunas em direção ao céu.
Tenho uma declaração de interesses a fazer: passo no concelho de Grândola a maior parte do meu tempo livre, para além de este território fazer parte do distrito por onde sou eleita. Mas não será condição que me retirará o direito de perguntar, de avaliar, e de daí tirar as consequências possíveis. Pelo contrário, dá-me uma responsabilidade acrescida de saber e de informar aqueles que, como eu, estranham e duvidam daquilo que alguns sabem e deverão esclarecer.