Noventa anos depois do seu início, em 1936, vale a pena olharmos para a Guerra Civil de Espanha, e procurar entender os contextos, as causas e, sobretudo, as consequências.
Nos anos 30, a sociedade espanhola encontrava-se bastante polarizada, em constantes confrontações sociais e políticas.
Bastava acender um rastilho, para que a sociedade se incendiasse. E foi precisamente isso que aconteceu, com o assassinato do deputado católico e monárquico Calvo Sotelo, que viria a desencadear a guerra civil até 1939.
As responsabilidades que estão na génese do conflito, foram tanto das “direitas tradicionalistas”, como das “esquerdas operárias”.
Frente-a-frente encontrava-se os milicianos da “Frente Popular” que defendiam a Segunda República e os militares nacionalistas, ou Falangistas, liderados pelo General Francisco Franco.
A Frente Popular era uma coligação heterogénea composta por socialistas, comunistas, anarquistas e republicanos, organizada em colunas voluntárias que, com o passar do tempo, integraram-se no Exército Popular da República, lutando para defender o governo, com fortes componentes revolucionários, anti-fascistas e anticlericais.
Do lado nacionalista, o partido original, denominado, Falange Espanhola foi fundado em 1933 por José António Primo de Rivera, com inspiração directa no fascismo italiano, caracterizado por um forte nacionalismo, anti-comunismo e anti-liberalismo, uma ligação próxima com os valores tradicionais, tendo a Igreja Católica como matriz da sua identidade.
O conflito armado surgiu como resultado do golpe militar de 17 de Julho de 1936 contra as forças do governo da República, que tinha vencido as eleições em Fevereiro desse ano.
A guarnição militar estacionada em Marrocos Espanhol, liderada pelo general Francisco Franco, revoltou-se contra o governo da República.
O chefe de governo, Santiago Casares Quiroga, demitiu-se, tendo sido substituído por Diego Martínez Barrio, que se demitiu também em Julho de 1936.
As regiões de Madrid, Barcelona, Bilbau, Valência e Málaga, o País Basco, a Catalunha e as Astúrias estavam sob controlo de forças leais ao governo, enquanto as forças falangistas controlavam as zonas rurais de Castela, as zonas montanhosas de Navarra e grande parte da Andaluzia.
Os falangistas contavam com a totalidade decisiva do Exército de África, integrada pelos “regulares”, comandados pelos melhores oficiais espanhóis – os “africanistas” – entre os quais Francisco Franco emerge rapidamente.
O exército estacionado em África deslocou-se para território espanhol em poucas semanas. O “alzamiento” transformou-se numa exaustiva “Guerra Civil” que abalou o país durante três anos.
A nível internacional, a guerra civil catalisou as simpatias da esquerda e da direita na Europa, tornando-se o “motor de arranque” para a 2ª Guerra Mundial.
Potências internacionais antigas e novas confrontam-se. O Reino Unido e a França evitaram qualquer interferência directa no conflito.
A Alemanha nazi e a Itália fascista inclinaram-se a favor da causa falangista; a União Soviética apoiou a República.
Um aspecto muito importante que seria decisivo para o desfecho da Guerra Civil foi a aviação. Com efeito, a Alemanha nazi enviou a Legião Condor, para apoiar as forças falangistas, cujo objectivo foi o de testar novas armas e tácticas de combate real, garantindo-lhe superioridade aérea.
Uma das acções mais infames da Legião Condor ocorreu em Abril de 1937 em Guernica, uma cidade basca que ficou completamente destruída e que serviu de inspiração a uma das mais importante e icónicas pinturas de Picasso.
A guerra continuou, fratricida e sanguinária, de ambos os lados, até Francisco Franco entrar na capital Madrid, a 1 de Abril de 1939, sancionando o fim da Guerra Civil e iniciando uma feroz repressão política.
A longa ditadura de Franco durou até à sua morte a 20 de Novembro de 1975, durante a qual a vida política foi condicionada, com uma grande maioria da população a viver no limiar da sobrevivência, na miséria e com a existência de uma classe privilegiada de proprietários de terras e gestores industriais.
As greves foram proibidas, milhares de republicanos foram presos e forçados a trabalhos forçados; no campo, o regime restaurou a estrutura social típica do “antigo regime”, onde o poder estava nas mãos da aristocracia rural e da Igreja.
A Guerra Civil Espanhola causou cerca de meio milhão de mortos.
Continuamos para a semana.