Instituição aguarda há mais de dois anos por autorização para abrir casa de acolhimento, já equipada, para mães e bebés
É necessário “reforçar o apoio às grávidas e às famílias em situação de vulnerabilidade e uma maior articulação entre os serviços de saúde, a Segurança Social e as instituições sociais, para garantir respostas atempadas e condições efetivas de proteção à maternidade”. A conclusão é da Santa Casa da Misericórdia do Montijo, que tem experienciado dificuldades de ação através do seu Centro de Apoio à Vida (CAV).
“Contactos dirigidos a centros de saúde e hospitais têm ficado sem resposta, comprometendo a possibilidade de uma intervenção mais precoce junto das grávidas”, revela a Misericórdia em nota de imprensa.
De resto, esta foi uma das situações relatadas pela assistente social Carolina Alves, do CAV da Misericórdia do Montijo, durante um colóquio sobre a interrupção voluntária de gravidez que decorreu na passada segunda-feira, na Assembleia da República. O CAV esteve também representado na iniciativa pela psicóloga Mafalda Boultwood.

Mas as dificuldades não se têm ficado por aí. Até porque, lembra a Santa Casa, o CAV “abrange os concelhos de Montijo, Alcochete, Moita e Barreiro e acompanha perto de 60 famílias” com “uma equipa de duas profissionais”, não obstante o acordo com a Segurança Social contemplar apenas “40 agregados familiares”.
“Entre os pedidos de ajuda encontram-se situações de adolescentes de 15 e 16 anos, famílias monoparentais e mulheres imigrantes sem rede de suporte familiar. O isolamento social, as dificuldades de acesso à habitação e os obstáculos ao acompanhamento médico durante a gravidez agravam a vulnerabilidade destas famílias”, observa a Misericórdia, que lamenta ainda a ação demorada da tutela.
“A Santa Casa aguarda também, há mais de dois anos, autorização para colocar em funcionamento uma casa de acolhimento já equipada, destinada a mães e bebés que necessitam de proteção e acompanhamento.”
Citado na mesma nota, Ilídio Massacote, provedor da Misericórdia do Montijo, é perentório: “A defesa da vida, desde a conceção, faz parte da identidade cristã da nossa Misericórdia e exige-nos um compromisso concreto com cada mãe, cada criança e cada família. A inspiração do Evangelho chama-nos a acolher, a escutar e a cuidar, sobretudo quando o medo, a solidão e a falta de meios parecem fechar todos os caminhos.”
E adianta: “Nenhuma mulher que deseje prosseguir a sua gravidez deve sentir que não o pode fazer por não ter uma casa, apoio familiar ou condições económicas. Uma sociedade que protege a liberdade de decisão tem também de garantir condições reais para acolher uma nova vida. É esse trabalho que procuramos fazer todos os dias. Mas as instituições não podem responder sozinhas, nem a dedicação das suas equipas substitui a responsabilidade dos poderes públicos. Precisamos de articulação efetiva com os serviços de saúde, de apoios ajustados às famílias que acompanhamos e de uma resposta que permita abrir a casa de acolhimento que já temos equipada.”
A terminar, o provedor apela a “um compromisso que possa reunir diferentes sensibilidades: proteger a maternidade, combater o abandono e dar a cada criança a possibilidade de ser acolhida com dignidade”.